[RESENHA] Bernardo Kucinski – K.

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Bernardo Kucinski – K., relato de uma busca

De uns anos para cá, a literatura brasileira resolveu debruçar-se sobre um tema bastante caro à nossa sociedade: a ditadura militar.
Não sei se por temor de que ela esteja à espreita, não sei se finalmente por criar coragem de tocar numa questão tão delicada, o fato é que finalmente o assunto tem alimentado histórias… E que histórias, viu! Como a que vemos em K. – relato de uma busca, do Bernardo Kucinski. Que livro, meus amigos!
Não posso me furtar de dizer que, até a FLAQ (Festa Literária de Aquiraz) 2014 nunca tinha ouvido falar nesse autor. Entretanto, ao assistir a uma mesa dividida por ele e pelo Rodrigo Lacerda (salvo engano), mesmo já tendo esvaziado bolsos, sem mais limite no cheque especial nem ter como carregar mais livros, tive que comprar esse K., após um pedido da minha agora esposa, à época noiva. Ambos nos envolvemos com a história contada por ele e tivemos curiosidade de saber se o livro era tão bom quanto ele nos passou a ideia de ser… E, olha, vou confessar uma coisa: hoje, só me arrependo de não ter lido esse livro antes.
Sim, porque demorei mais de dois anos para lê-lo! Mea culpa, me desculpem.

Bernardo Kucinski
Bernardo Kucinski e eu

Bom, continuando… O livro é um relato real da busca de um pai (K. – não tem como não se lembrar de Kafka e seu O Processo) por sua filha (A.), professora-doutora de Química na USP que foi desaparecida pela ditadura militar.
É angustiante acompanhar o drama desse pai, que só deseja descobrir o paradeiro de sua filha. Perambula por encontros de desaparecidos políticos, vai conversar com autoridades militares, vai ao IML, e ninguém sabe/pode/quer dizer-lhe onde ela foi parar!
Uma das cenas mais impressionantes é a do capítulo A reunião da Congregação, um relato da reunião em que a USP decidiu pela demissão de A., por… ABANDONO DE EMPREGO. Ela, que havia sido desaparecida pelo regime militar!
Outro capítulo que me tocou bastante foi A Matzeivá, que fala sobre a impossibilidade de K. colocar uma espécie de lápide para a filha – pois não há um corpo para enterrar, e, se não há corpo…
Agora, acho que o relato mais forte é o do capítulo A terapia, em que uma mulher conta, à sua psicóloga, o que presenciou como faxineira em uma casa de tortura. É simplesmente de fazer com que nos perguntemos o porquê de ainda haver quem defenda a volta da ditadura, quem defenda a prática de torturas… Eu, particularmente, não consigo entender isso.
Em algumas passagens do livro nos pegamos fazendo a pergunta: “será que tudo isso foi de verdade?“; na mesma hora, vem à lembrança a epígrafe, assinada pelo próprio autor (e não pelo narrador – sim, isso faz toda a diferença em epígrafes): “Caro leitor: Tudo neste livro é invenção, mas quase tudo aconteceu“.
Os capítulos são muitos, mas curtos: no máximo dez páginas. Há algumas notas de rodapé, especialmente quando são utilizadas palavras em iídiche (língua de verdadeira devoção de K., que se culpa por sempre ter tido maior preocupação com essa “língua-cadáver” do que com a própria filha), mas, pra quem não tem muito conhecimento sobre a ditadura militar, cabe ler o livro e pesquisar os nomes dos militares à medida que aparecem… Vocês vão ver: todos são reais. Afinal, apesar de tudo neste livro ser invenção, quase tudo aconteceu.
Inclusive o sumiço de A., que é ninguém menos que Ana Rosa, irmã de Bernardo Kucinski.


Título: K. – relato de uma busca
Autora: Bernardo Kucinski
Editora: Cosac Naify :~
Categoria: Romance
Ano: 2014
Páginas: 192
Mais sobre o autor
Classificação: 


TRECHOS

. Sabe, uma coisa é a gente sonhar e correr riscos mas ter esperanças, outra coisa muito diferente é o que está acontecendo. Uma situação sem saída e sem explicação, direitinho como no filme do Buñuel. Uma tensão insuportável e sem nenhuma perspectiva de nada. Já nem sei mais onde está a verdade e onde está a mentira. (pp. 49-50)
. O pior foi ontem, quando eu falei em sacrificar a cadela, levei o maior esporro, me chamou de desumano, de covarde, que quem maltrata cachorro é covarde; quase falei pra ele: e quem mata esses estudantes coitados, que têm pai e mãe, que já estão presos, e ainda esquarteja, some com os pedaços, não deixa nada, é o quê? (p. 65)
. Ele não era de falar à toa, sabe, meio caladão, mas enxergou antes que a roça ia sumir. Depois vieram essas montadoras, fábricas de peças; um dia esse povo vai ter que comer parafuso, não vai ter leite nem requeijão, nem coalhada nem manteiga nem açúcar nem nada. (p. 85)
. Os filhos é que deveriam enterrar os pais e não os pais enterrarem os filhos, pior que nem isso, nem enterrar podemos. (p. 87)
. Mas o que importa é que virou paixão. E aí não interessa se o cara é um bandido, se é casado ou solteiro, ou o que seja; não sei se a senhora já viveu uma paixão, se a gente nega, ela só aumenta, vira doença, arrebenta com a gente. A senhora não pense que paixão e amor são a mesma coisa, paixão é loucura, é cegueira, a perda completa do nosso discernimento. É como se ele tivesse me hipnotizado. (p. 102)
. Vivemos um paradoxo … admitem que têm motivos políticos para prender, mas não reconhecem que prenderam. (p. 148)
. O sobrevivente só vive o presente por algum tempo; vencido o espanto de ter sobrevivido, superada a tarefa da retomada da vida normal, ressurgem com força inaudita os demônios do passado. (p. 166)


Sinto-me na obrigação de acabar essa resenha com uma imagem (não me perdoaria se não o fizesse):

fora temer

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