[CONTO] A vida como ela é… – Rafael Caneca

* homenagem a um amigo, daquele tipo que a gente não encontra em qualquer bar.

Batista foi um homem vivido. Acostumado a ser o bon vivant invejado pelos homens e admirado pelas mulheres, no auge dos seus trinta anos, tinha histórias homéricas a contar. E sempre divertia a turma de amigos da cerveja e da bola quando começava a contar das suas.

– Ah, a Carminha, então… Aquela ali sabia bem o que fazer na hora H!

Lá ia mais meia hora de um monólogo, às vezes entrecortado pelas risadas ou pelos uivos de admiração dos amigos que haviam acabado de bater a pelada semanal – da qual Batista não participava, afinal, “não queria correr o risco de quebrar as pernas e ficar de molho pro sexo” na época em que o homem vivenciava seu esplendor sexual (está comprovado cientificamente, podem procurar na Super Interessante).

Se alguém inventasse de escrever um caderninho com todas as histórias de Batista – e ele tinha um registro de todas as mulheres com as quais se envolveu, com nome, idade, quando e, principalmente, como –, daria, no mínimo, três volumes, com novas edições lançadas semanalmente. Sem contar as páginas já escritas que, de vez em quando, Batista gostava de reler; e lá iam novos registros de nomes antigos, apenas algumas páginas mais adiante.

Até o dia em que conheceu Marina. Mulher bonita, olhos azuis, cabelos pretos, cobiçada – de início, Batista só queria escrever mais um nome no caderninho; no entanto, Marina soube usar de seu charme e conquistar Batista, que, ao cabo de um mês e meio (uma eternidade!), estavam namorando.

Não que isso impedisse escapadas de Batista. Afinal, “era homem”, e seu instinto natural mandava na sua mente.

– O homem é um ser poligâmico, essa história de monogamia é a maior mentira da humanidade – era praticamente o seu mantra.

E costumava acrescentar depois:

– Mas eu estou falando do homem! A mulher não…

No entanto, por mais que continuasse aumentando seus registros no caderninho, novas histórias eram cada vez mais raras. E, de vez em quando, Batista ainda tinha remorso (um sentimento até então inexistente, já que considerava traição algo normal). Flashbacks eram o que acontecia mesmo com maior frequência, enquanto os dias de pelada e cerveja com os amigos iam ficando paulatinamente mais monótonos.

– Pô, Batista… Essa história a gente já ouviu!

No entanto, tinha uma que Batista não contava para ninguém. Não tão bonita, mas de uma sensualidade que Batista não conseguiu achar em ninguém mais. Claudinha foi sua namorada ainda durante a adolescência e agora estava casada com um sargento do Exército (por temer pela sua vida que Batista não relatava a ninguém suas relações extraconjugais).

Até Claudinha se casar com Damião, Batista ainda se encontrava com ela com certa frequência; após, os encontros foram se rareando, mas cada vez mais intensos e perigosos. Um encontro esporádico aqui, outro acolá; não tinha uma data fixa, mas obedecia a um cronograma não estipulado de uma vez por mês. Em motéis a trinta quilômetros da cidade, em quartinhos alugados, no carro (no carro!)…

Marina não suspeitava de nada, já que Batista usava a desculpa de que estava procurando emprego. “A crise tá difícil, meu chuchuzinho!”, ele repetia, quando Marina vinha se lamentar que a herança que seu pai havia deixado já estava acabando, que já era tempo de Batista virar um homem sério.

A desculpa do emprego não deixava de ser uma meia-verdade (consequentemente, uma meia-mentira também). De vez em quando, Batista ia a algumas entrevistas antes de se encontrar com Claudinha. Inicialmente, só entrevistas que remetiam ao seu sonho de infância: gerente de hotéis. Entretanto, sem falar inglês, mal sabendo falar o português, sem haver concluído o ensino médio, nenhuma empresa queria contratá-lo.

Passou, então, a recorrer a opções secundárias: recepcionista de hotel. Porém, acabava recaindo nas mesmas dificuldades para ser gerente. Enquanto isso, os queixumes de Marina passavam a ser mais frequentes, assim como os encontros com Claudinha (de quinze em quinze dias).

O caderninho já havia sido abandonado. Os amigos da pelada e da cerveja, idem. O único que permanecia intacto era o velho sonho de trabalhar em um hotel, logo abandonado quando surgiu a oportunidade de ser caixa em uma loja de artigos masculinos. Era o emprego ideal para Batista – não exigia muita experiência nem qualificação, o trabalho não era muito duro. A remuneração também não era muito boa, mas para quem não ganhava nada estava ótimo.

Nessa época, os encontros com Claudinha aconteciam todos os dias. Até mesmo na casa dela. Se Batista ainda escrevesse no seu caderninho, era capaz de registrar “Marina” como aventura, tamanho o descaso com que conduzia seu casamento.

Seguiu para a entrevista de emprego confiante. Conhecia o dono da loja, era filho de um antigo amigo de pelada. Já considerava o trabalho como seu. Saiu da entrevista ainda mais certo de que em um mês receberia seu primeiro salário e, no caminho, pensando em surpreender Marina, comprou-lhe flores e dirigiu-se à sua casa.

Quando chegou à casa, não teve nem tempo para recuar. Damião, de saída para o trabalho, atingiu-o com quatro tiros.


Este conto esteve no meu primeiro livro, Tardios Manuscritos Juvenis. Publico-o hoje aqui no blog como uma forma de homenagem para lembrar que, há exatos 104 anos, nascia um dos grandes escritores, dramaturgos e que souberam retratar fielmente grande parcela da sociedade brasileira: Nelson Rodrigues.

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