[RESENHA] Svetlana Aleksiévitch – Vozes de Tchernóbil

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(Diálogos íntimos)

– Cara, tá sabendo que a vencedora do último Nobel de Literatura estará na FLIP? Tu devia ler algo dela…
– Não sei, não curto muito quando há um hype em cima de algo. Prefiro esperar a onda passar.
– Que nada, tá perdendo tempo… Lê pelo menos Vozes de Tchernóbil – A história oral do desastre nuclear. São relatos de vítimas desse acidente!
– Olhaí, relatos?! E cadê a literatura?

Tá lá. Bem feita. Um primor de trabalho mesmo.

O livro é todo feito de relatos bem construídos de pessoas que tiveram suas vidas mudadas, de uma hora para outra, por força de um acidente causado pelo próprio homem. Não se trata de um libelo contra o progresso e contra a ciência, mas sim da constatação de um fato trágico: o de que, às vezes, na busca pelo poder, o homem é capaz das coisas mais horríveis.

Nos últimos suspiros da Guerra Fria, revelar um acidente daquelas proporções representaria, para o império soviético, o seu suicídio. A saída então foi esconder informações importantíssimas, distorcer fatos e consequências e buscar remediar, secretamente, o irremediável. Claro que não poderia dar certo, né?

As vozes são várias, mas o que se ouve é uma coisa só. O sofrimento daquelas pessoas, os fatos trágicos, emocionantes e revoltantes deixam marcas na nossa alma, assim como deixaram nas de todas as vítimas. Confesso que esse foi o primeiro livro que me emocionou de verdade – tanto é que, apesar da vontade, eu não consegui lê-lo todo de uma vez. É pesado demais, me pegava às vezes com uma sensação semelhante à que tive quando visitei Dachau.

O livro se inicia com uma Nota Histórica, que explica sucintamente o acidente de Tchernóbil e a região em que ele aconteceu (Bielorrússia), por meio de notícias extraídas da internet ou de jornais locais.

Em seguida, Uma solitária voz humana é uma espécie de introdução: o relato de Liudmila Ignátienko, uma mulher cujo marido, o bombeiro Vassíli Ignátienko, foi chamado assim que a usina explodiu. Recém-casados, ela não o abandonou em nenhum momento, nem mesmo quando ele foi ao hospital, onde teria que ser mantido longe de todos. O primeiro parágrafo já é bastante impactante:

Não sei do que falar… Da morte ou do amor? Ou é a mesma coisa? Do quê?

A mulher tinha esperança na cura do marido. Entretanto, uma enfermeira auxiliar se encarregou de prepará-la para o pior:

– Algumas enfermidades não se curam. Você deve sentar ao lado dele e acariciar a sua mão.

Em seguida, há uma Entrevista da autora consigo mesma sobre a história omitida e sobre por que Tchernóbil desafia a nossa visão de mundo. Desta, destaco os seguintes trechos:

Quantas vezes a arte ensaiou o Apocalipse, experimentou diversas versões tecnológicas do fim do mundo, mas agora sabemos com certeza que a vida é mais fantástica ainda.

(…)

Calaram-se os filósofos e os escritores, expulsos dos seus canais habituais da cultura e da tradição. Naqueles primeiros dias, era mais interessante conversar não com cientistas, funcionários ou militares com muitas medalhas, e sim com os velhos camponeses. Gente que vivia sem Tolstói e Dostoiévski, sem internet, mas cuja consciência de algum modo continha uma nova imagem de mundo.

(…)

A zona é um mundo à parte. Outro mundo em meio ao restante da Terra. Primeiro foi inventada pelos escritores de ficção científica, mas a literatura cedeu o passo à realidade. Agora já não podemos mais crer, como os heróis de Tchékhov, que dentro de cem anos o ser humano será maravilhoso. Que a vida será maravilhosa! Esse futuro nós já perdemos. Nesses cem anos houve o gulag de Stálin, Auschwitz, Tchernóbil. O Onze de Setembro de Nova York.

Aí, vamos finalmente para a primeira parte: A terra dos mortos. E entramos naquilo que acho uma das coisas mais poéticas desse livro: os títulos dos monólogos, ou seja, os relatos de cada pessoa, que constituem espécies de capítulos da obra. Os títulos são tirados de falas dessas próprias pessoas.

Após esses monólogos, cada parte se encerra com Coros, relatos de um grupo específico de pessoas.

– Monólogo sobre para que as pessoas recordam;
– Monólogo sobre o que se pode conversar com os vivos e com os mortos;
– Monólogo sobre toda uma vida escrita nas portas;
– Monólogo de uma aldeia sobre como se convocam as almas do céu para chorar e comer com elas;
– Monólogo sobre minhocas, a alegria das galinhas, e sobre o que ferve na panela também não ser eterno;
– Monólogo sobre uma canção sem palavras;
– Três monólogos sobre um antigo terror, e sobre por que o homem calava enquanto as mulheres falavam;
– Monólogo sobre o fato de que o homem só se esmera na maldade, mas é singelo e aberto às palavras simples do amor.

Ao final do capítulo, há o Coro de soldados.

A segunda parte, A coroa da criação, segue com os monólogos:

– Monólogo sobre velhas profecias;
– Monólogo sobre a paisagem lunar;
– Monólogo de uma testemunha que sentiu dor de dente ao ver Cristo cair e gritar de dor;
– Três monólogos sobre os “despojos andantes” e a “terra falante”;
– Monólogo sobre o fato de que não sabemos viver sem Tchékhov e Tolstói;
– Monólogo sobre como São Francisco pregava aos pássaros;
– Monólogo sem nome – um grito;
– Monólogo a duas vozes: masculina e feminina;
– Monólogo sobre como uma coisa completamente desconhecida vai se introduzindo dentro de você;
– Monólogo sobre a filosofia cartesiana e sobre como você come um sanduíche contaminado com outra pessoa para não passar vergonha;
– Monólogo sobre o fato de que há muito descemos da árvore e não inventamos nada para que ela se convertesse depois numa roda;
– Monólogo junto a um poço fechado;
– Monólogo sobre a nostalgia de um argumento e de uma atuação.

Dessa vez, o coro ao final é do povo.

A terceira parte é A admiração pela tristeza:

– Monólogo sobre o que não sabíamos: que a morte pode ser tão bela;
– Monólogo sobre como é fácil se tornar terra;
– Monólogo sobre os símbolos e os segredos de um grande país;
– Monólogo sobre como na vida as coisas terríveis ocorrem em silêncio e de forma natural;
– Monólogo sobre o fato de que o russo sempre quer acreditar em algo;
– Monólogo sobre a pequena vida ser tão indefesa nos tempos grandiosos;
– Monólogo sobre a física pela qual todos nós em algum momento estivemos apaixonados;
– Monólogo sobre o que está muito além de Kolimá, de Auschwitz e do holocausto;
– Monólogo sobre a liberdade e o sonho de uma morte comum;
– Monólogo sobre a aberração que, apesar de tudo, vão amar;
– Monólogo sobre o fato de que se deve somar algo à vida cotidiana para compreendê-la;
– Monólogo sobre o soldado mudo;
– Monólogo sobre as eternas e malditas perguntas: o que fazer? e quem é culpado?
– Monólogo sobre um defensor do poder soviético;
– Monólogo sobre como dois anjos se encontraram com a pequena Olga;
– Monólogo sobre o poder ilimitado de uns homens sobre outros;
– Monólogo sobre as vítimas e os sacerdotes.

O último coro é o das crianças.

Finalmente, há um outro capítulo, intitulado como a “introdução” (Uma solitária voz humana), o relato de Valentina Timofiéevna Apanassiévitch, viúva de um liquidador.

Segue-se, então, o epílogo, uma propaganda de turismo a Tchernóbil (extraída de jornais bielorrussos), e o discurso proferido pela autora na cerimônia em que foi galardeada com o Nobel de Literatura, intitulado A batalha perdida.

Conclusão? No dia de sua mesa na FLIP, não tive outra saída a não ser comprar o outro livro de Svetlana. O hype estava certo, mais uma vez: há muita literatura nos seus relatos.


Título: Vozes de Tchernóbil – a história oral do desastre nuclear
Autora: Svetlana Aleksiévitch
Editora: Companhia das Letras
Categoria: Narrativas pessoais
Ano: 2016
Páginas: 384
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Classificação: 


Trechos
Monólogo sobre para que as pessoas recordam
. Para que as pessoas recordam? Para restabelecer a verdade? A justiça? Para se libertar e esquecer? Ou porque compreendem que participaram de um evento grandioso? Porque buscam no passado alguma proteção? E, além disso, a recordação é uma coisa frágil, efêmera, não é um conhecimento exato, é uma suposição do homem sobre si mesmo. Isso ainda não é conhecimento, é apenas sentimento. (p. 56)
. Não reconheço este mundo. Tudo nele mudou. Até o mal é outro. (p. 57)
Monólogo sobre o que se pode conversar com os vivos e com os mortos
. Deus não me livrou de danos, mas me deu anos. (p. 60)
Monólogo de uma aldeia sobre como se convocam as almas do céu para chorar e comer com elas
. Ninguém sabe o que há em outro lugar. Aqui é melhor, já conhecemos tudo. (p. 69)
. Na terra que te viu nascer, lá deves morrer. (p. 71)
. Na nossa terra, estamos no paraíso. Mas em outras terras, até o sol brilha de outro jeito. (p. 71)
. De noite rogamos a Deus; de dia, aos policiais. (p. 75)
Monólogo sobre minhocas, a alegria das galinhas, e sobre o que ferve na panela também não ser eterno
. Se todo mundo fosse inteligente, não ia sobrar ninguém para ser tolo. (p. 83)
. Todo conto tem a sua verdade. (p. 83)
Três monólogos sobre um antigo terror, e sobre por que o homem calava enquanto as mulheres falavam
. Eu não temo a Deus. Tenho medo é dos homens. (p. 90)
. Gosto de caminhar pelo bosque e pensar. Os outros assistem à televisão para ver o que está acontecendo. Mas eu não quero saber. (p. 95)
. Antigamente, na guerra, como dizia a minha mãe, as pessoas se compadeciam bem mais do próximo. Outro dia, encontraram no bosque um cavalo selvagem. Estava morto. Em seguida, uma lebre. Não foram mortos, estavam mortos. Todos ficaram preocupados. Depois encontraram um mendigo morto, mas esse passou despercebido. (p. 95)
Monólogo sobre o fato de que o homem só se esmera na maldade, mas é singelo e aberto às palavras simples do amor
. As estações [de trem] me agradam porque há muita gente, mas ao mesmo tempo você está sozinho. (p. 97)
. O homem não pode ser feliz. Não deve. (p. 98)
. É verdadeiro o mundo gravado nas palavras? A palavra se interpõe entre o homem e a alma. (p. 99)
Coro de soldados
. A salvação do náufrago está nas mãos do próprio náufrago. (p. 107)
. Ao regressar do Afeganistão, eu sabia que iria viver! Mas Tchernóbil é o contrário, você morre justamente quando já está em casa. (p. 110)
Monólogo sobre a paisagem lunar
. O que é melhor, lembrar ou esquecer? (p. 129)
. Por que se escreve tão pouco sobre Tchernóbil? Os nossos escritores continuam a escrever sobre a guerra, sobre os campos de trabalho stalinistas, mas calam sobre Tchernóbil. Há talvez um, dois livros e acabou-se. Você acha que é mera casualidade? O acontecimento ainda está à margem da cultura. É um trauma da cultura. E a nossa única resposta é o silêncio. Fechamos os olhos como crianças pequenas e acreditamos que assim nos escondemos, que o horror não nos alcançará. (p. 130)
Monólogo de uma testemunha que sentiu dor de dente ao ver Cristo cair e gritar de dor
. Os homens nunca estão à altura dos grandes acontecimentos. Os fatos sempre os superam. (p. 137)
Monólogo sobre o fato de que não sabemos viver sem Tchékhov e Tolstói
. Se os cientistas não sabem nada, se os escritores não sabem nada, então os ajudaremos com a nossa vida e a nossa morte. (p. 147)
. Como se pode crer em algo que não se compreende? (p. 150)
. Você saberia me dizer por que esse pecado recai sobre nós? O pecado de parir um filho. Não sou culpada de nada. (p. 152)
Monólogo sobre como São Francisco pregava aos pássaros
. Na guerra você se torna um verdadeiro escritor. (p. 152)
. Todas as nossas ideias humanistas são relativas. Em situações extremas, o homem real não tem nada a ver com as descrições dos livros. Nunca vi homens como os que aparecem nos livros. Não encontrei nenhum. É bem ao contrário. O homem não é um herói, todos nós somos vendedores do Apocalipse. Os grandes e os pequenos. (p. 159)
Monólogo a duas vozes: masculina e feminina
. Eu não quero fazer comércio com a desgraça. Filosofar. Para isso eu teria que tomar partido. E eu não posso. (p. 164)
. O saber em si mesmo nunca é culpável. (p. 170)
Monólogo sobre como uma coisa completamente desconhecida vai se introduzindo dentro de você
. Depois de Tchernóbil, o que restou foi a mitologia de Tchernóbil. (p. 173)
. O que se deve fazer não é escrever e sim anotar. Documentar os fatos. (p. 173)
Monólogo sobre a filosofia cartesiana e sobre como você come um sanduíche contaminado com outra pessoa para não passar vergonha
. Alguém escreveu que no século XX, e agora já no século XXI, vivemos de acordo com o que aprendemos da literatura do século XIX. (p. 188)
. Uma mistura de prisão e jardim de infância, isso é o socialismo que conhecemos. O socialismo soviético. O homem entregava ao Estado a alma, a consciência, o coração, e em troca recebia uma ração. (p. 195)
Monólogo sobre o fato de que há muito descemos da árvore e não inventamos nada para que ela se convertesse depois numa roda
. O progresso exige vítimas, e quanto mais longe for, mais vítimas serão. (p. 198)
Monólogo junto a um poço fechado
. Se você vive muito, até a vida te esquece, e inclusive o amor se apaga. (p. 208)
. Os defuntos querem ficar a sós. Como nós. Do mesmo jeito. A vida dos mortos é como a nossa. (p. 213)
Monólogo sobre a nostalgia de um argumento e de uma atuação
. Da guerra regressou a geração “perdida”, de Tchernóbil vive a geração “desorientada”. (p. 224)
Coro do povo
. Nenhuma mãe chora na enfermaria, só no toalete, no banheiro. (p. 233)
. Nós pensamos que vivemos como todo mundo. Andamos, trabalhamos, amamos… Não! Nós registramos informações para o futuro. (p. 234)
Monólogo sobre como é fácil se tornar terra
. O homem se acostuma a tudo. (p. 250)
Monólogo sobre como na vida as coisas terríveis ocorrem em silêncio e de forma natural
. Você saía da cidade, e ao longo da estrada surgiam uns espantalhos; via uma vaca pastando coberta por um plástico e ao lado dela uma velha também coberta por plástico. (p. 258)
. Numa exposição de desenhos de crianças, vi um em que uma cegonha caminha por um campo negro na primavera. Com uma anotação abaixo: “Ninguém disse nada para a cegonha”. (p. 259)
. Na vida as coisas mais terríveis ocorrem em silêncio e de forma natural. (p. 263)
Monólogo sobre o fato de que o russo sempre quer acreditar em algo
. Nós pensamos com a língua, mas a língua também nos pensa. (p. 266)
. Meio país encarcerava e meio país estava encarcerado. (p. 267)
. Tchernóbil é um tema dostoievskiano. (p. 268)
Monólogo sobre a física pela qual todos nós em algum momento estivemos apaixonados
. Só tem sentido o tempo vivido. O nosso tempo vivido. (p. 279)
Monólogo sobre o que está muito além de Kolimá, de Auschwitz e do holocausto
. O homem armado de machado e arco ou com lança-granadas e câmara de gás não pode matar todo mundo. Mas o homem com o átomo… Nesse caso, toda a Terra está em perigo. (p. 280)
Monólogo sobre a liberdade e o sonho de uma morte comum
. “Adivinhe qual é o meu maior sonho.” “Qual?” “Uma morte comum.” (p. 289)
Monólogo sobre a aberração que, apesar de tudo, vão amar
. Na casa de um doente de câncer não se fala da sua terrível doença. Tampouco na cela de um condenado a prisão perpétua se contam os anos que lhe restam cumprir. (p. 292)
Monólogo sobre o fato de que se deve somar algo à vida cotidiana para compreendê-la
. Costumam perguntar: “Por que você não fotografa com filme colorido? Em cores!”. Porque Tchernóbil significa “negro”. As outras cores não existem. (p. 293)
. Por que me tornei fotógrafo? Porque me faltavam palavras. (p. 298)
Monólogo sobre o soldado mudo
. Nós nos transformamos de tal forma que o horror que hoje passa nas telas precisa ser ainda mais terrível que o de ontem. Caso contrário, não mete medo. (p. 299)
. A guerra deveria ser mostrada como algo tão pavoroso que provocasse vômito nas pessoas. Que pusesse as pessoas doentes. Ela não é um espetáculo. (p. 300)
. Tenho medo de uma coisa: de que o medo ocupe na nossa vida o lugar do amor. (p. 305)
Monólogo sobre um defensor do poder soviético
. Nós sofremos e vocês escrevem. Escritores de merda! Tiram vantagem do povo. Confundem. Arrancam dele o que não tem. (p. 311)
Monólogo sobre as vítimas e os sacerdotes
. O ápice do livre pensamento é: “Posso comer rabanetes ou não?”. A falta de liberdade está dentro de nós. (p. 333)
Coro de crianças
. À noite, os versos soam de forma diferente. (p. 349)


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