[CRÔNICA] Sobre responsabilidades – Rafael Caneca

O ano era 2002. Eu estava com dezessete anos, no famigerado terceiro ano do ensino médio. Não sei como será no futuro, mas posso dizer que esse era o ano mais tenso da escola, afinal, era o último. Ao final dele, você prestava o temido vestibular, para tentar ingressar em uma faculdade. No meu caso, em uma universidade pública (na minha casa, não havia como cursar uma particular, seja porque minhas duas irmãs já eram alunas de públicas, seja por motivos financeiros mesmo).
Além da responsabilidade escolar, havia a responsabilidade como homem. Se, como todos sabemos, a mulher amadurece antes – e o seu baile de debutante, aos quinze anos de idade, já é um forte indício disso -, o homem só se revela como tal a partir dos dezoito. Vocês sabem como é, somos mais lentos mesmo… (há inclusive estudos revelando que, na verdade, os homens só amadurecem depois dos quarenta; inclino-me a essa tese, confesso).
De toda forma, era um ano de responsabilidade. Terceiro ano, vestibular, último ano antes do amadurecimento…
Não sei se querendo me testar, se estavam com vontade mesmo, se quiseram aproveitar que o dinheiro só dava para pagar uma viagem para quatro pessoas, ou se tudo isso e mais um pouco, o fato é que meus pais resolveram viajar pelo litoral com minhas duas irmãs. Eu ficaria sozinho no apartamento durante uma semana inteira; sem problemas, já estava acostumado a ficar sozinho, afinal, adolescente gosta é de se isolar mesmo.
Minhas únicas obrigações, além de sobreviver, seriam alimentar o peixe e aguar as plantas. Simples assim.
Sábado, véspera da viagem deles, fui ao evento mais esperado do ano por mim (pelo menos até aquele fim de semana): o Ceara Music. Voltei para casa com o sol já alto, meus pais me esperando para se despedir. Após inúmeras recomendações repetidas, saíram e eu pude dormir em paz. Posso até estar enganado, mas creio que eles inclusive me disseram, mais de uma vez, para não aceitar balas de estranhos no meio da rua.
Após aquela dormida revigorante, acordei me sentindo outro. Um mais responsável, um com quase dezoito anos, com a casa só para si.
Responsável como fui, a semana correu normal.
Correu tão normal que, cinco dias depois, estava me arrumando para ir ao colégio, quando olhei ali, na cozinha, o aquário:
– Olha, o peixe.
Um segundo se passou. Dois segundos. Três. Cinco.
– O… peixe!
Um estalo lembrou aquela responsabilidade. Mas só aquela; as plantas não tiveram a mesma sorte. Permaneceram em um Saara forçado.
A primeira semana como homem da casa. É, a vida adulta não seria nada fácil…

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