[RESENHA] Carola Saavedra – Paisagem com dromedário

dromedario
Carola Saavedra – Paisagem com dromedário

GRAVAÇÃO 1
Barulho de vento e de ondas batendo num rochedo. Pequenas pedras caindo na água. Passos. Interrupção. Voz.
Estou no extremo sul da ilha. Se eu nadasse numa linha reta, imagino que em algum momento chegaria ao Antártico. Terras austrais. De qualquer forma, o extremo sul não significa muita coisa, quando o extremo norte fica a pouco mais de duas horas de carro. Poucas horas de carro, e pronto, terminou a ilha. O mar, em compensação, parece inesgotável. Assustador. O mar aqui é um mar que ainda não foi domesticado. Nunca lhe foi imposto limite algum. Até mesmo as cores, o cheiro, as algas, tudo nele parece que acaba de surgir. E me vem sempre a sensação de estranhamento quando olho em volta e vejo estradas, casas, pessoas, como em qualquer outro lugar. (p. 9)

É assim o primeiro parágrafo de Paisagem com dromedário, da chilena-brasileira Carola Saavedra (nasceu no Chile, mas logo veio ao Brasil). Você termina de ler esse parágrafo e já surgem algumas indagações:
– Que ilha é essa?
– Com quem esse narrador fala?
– Aliás, quem é esse narrador? Homem ou mulher?
– Por que esse narrador tá nesse fim de mundo – que é igual ao resto do mundo?
O próximo parágrafo esclarece algumas coisas:

Faz uma ou duas semanas que estou aqui. Talvez sejam apenas alguns dias, não sei. Alex (opa, olha o interlocutor aí!), os dias passam de modo incomum neste lugar. Mas eu não queria começar falando da ilha, também não queria começar reclamando de que o tempo passa rápido ou devagar. Queria começar falando de uma imagem. Não sei se era uma fotografia ou se fui eu que guardei aquele momento como algo estático na memória. Antes que as coisas com Karen tomassem o rumo que tomaram. Nós três. A imagem era assim: Karen abrindo uma garrafa de vinho, você a abraçava pelas costas, dizia alguma coisa em seu ouvido. Karen ria, envergonhada. Karen sempre ria assim, como se o riso fosse algo obsceno. Ela abaixava a cabeça, desviava o olhar, e ria. Eu, sentada (opa, narradora, então!) naquela tua poltrona, o couro gasto, desbotado, eu ria também, mas meu riso, como sempre, era quase uma gargalhada. Eu segurava uma taça ainda cheia. Não sei mais qual era o motivo, mas lembro que naquele instante tudo me parecia tão suave, tão perfeito, como se fosse impossível qualquer incompreensão, qualquer desentendimento. (p. 10)

Percebemos que Karen, Alex e Érika (este é o nome da narradora, descobrimos em seguida), um trio de artistas (Karen era ex-aluna de Alex), mantinham um triângulo amoroso relativamente tranquilo.
Sim, relativamente. Porque, no dia em Karen compartilha com Érika a notícia de que está com câncer, Érika vai à casa de Alex e…

Cheguei sorrindo, te dei um beijo. Lembro que fiz um comentário sobre a relevância do material que você estava usando, você riu, me serviu uma taça de vinho, eu bebi sem deixar de olhar para você. Depois tirei a blusa, você surpreso com aquela visita inesperada, aquela minha espontaneidade. Te beijei de novo, eu estava contente, feliz, lânguida, você disse. (p. 31)

Alguns silêncios e ausências, a partir daí, se estabelecem. Há respostas para alguns deles; para outros, não.
Érika abandona totalmente a amiga-amante, apesar de Karen deixar mensagens na sua secretária eletrônica constantemente, buscar falar com Érika de toda forma, mandar recados por Alex… Até mesmo a mãe de Karen, uma ex-atriz famosa (que nem era tão boa assim, como Érika faz questão de ressaltar), vai atrás de Érika e pede que ela ligue para sua filha, fale com ela.
Mas o que acontece depois?
Karen morre. Érika vai para a ilha, passar um tempo na casa do casal Dreyfuss (Vanessa e Bruno) – sendo Vanessa a dona de uma galeria e, como praticamente todas as mulheres que aparecem no livro, também apaixonada por Alex. Érika não se comunica diretamente com Alex, apenas grava mensagens para ele; o livro é organizado assim: em vez de capítulos, gravações, que servem como uma espécie de diário e de reflexões de sua vida, passado, presente e futuro.
Ou seja: Érika não abandona apenas Karen. Também resolve se afastar de Alex – mas ele exerce uma atração sobre ela tão grande, que mesmo a quilômetros de distância ela não consegue afastar-se definitivamente. Prova disso é a vontade de comunicar-se com ele que Érika tem (se assim não fosse, por que gravar essas mensagens?).
Além disso, mesmo quando tenta continuar a sua vida, envolvendo-se com outro homem, Érika não esquece Alex. Até que, no final…
Não, não vou falar. Não gosto de spoilers. LEIA! 🙂


Título: Paisagem com dromedário
Autor: Carola Saavedra
Editora: Companhia das Letras
Categoria: Romance
Ano: 2010
Páginas: 168
Mais sobre o autor: Carola Saavedra na wikipedia
Classificação: 


CURIOSIDADES
– Há várias passagens que são verdadeiras reflexões sobre o fazer artístico e literário ao longo do livro (principalmente do meio para o fim);
– As frases são tão bem escritas, numa simplicidade tão grande, que eu não ficaria surpreso se me flagrasse sublinhando uma passagem como “chovia ontem”;
– O livro pode ser lido como um roteiro de peça já praticamente finalizado… Se você for do teatro e estiver sem ideia de um texto para adaptar, que tal?
– Carola Saavedra ganhou o Prêmio APCA de melhor romance, em 2008, por outra obra sua (Flores azuis), e o Prêmio Rachel de Queiroz, categoria jovem autor, em 2010, por esta; além disso, já figurou entre os finalistas do Prêmio Jabuti e do Prêmio São Paulo de Literatura, além de estar entre os 20 melhores jovens escritores brasileiros, segundo a revista Granta;
– Conheci a Carola Saavedra na FLAQ de 2014, oportunidade em que comprei esse livro e pedi para que ela me dedicasse. 🙂

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