[RESENHA] Liev Tolstói – O diabo

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Liev Tolstói – O diabo

Digo e repito: sempre acabo retornando aos russos. E nunca me arrependo!
Em O diabo, Liev (Leon) Tolstói nos conta a história de Evguêni Ivânovitch Irtênev, um rapaz de 26 anos de idade, altura mediana, formado em Direito pela Universidade de São Petersburgo e que, após a morte do pai, decidiu se mudar para as terras da família, em Semiônovskoie, para administrá-las. Ao chegar lá, soube o quanto seu pai administrava mal as finanças da família e resolveu tomar as rédeas da situação. Dessa forma, abandonou algumas práticas financeiras prejudiciais do pai, com a intenção de retomar o conservadorismo que seu avô sempre tivera.

Os conservadores são comumente os jovens, porque estes querem aproveitar a vida e não têm tempo de pensar em como devem viver, e, assim, tomam como exemplo a seguir o modo de vida antigo. (p. 6)

Ao chegar a Semionôvskoie, Evguêni passou a sentir falta daquilo que qualquer pessoa sente…

Anteriormente, ele vivia como vivem todos os jovens solteiros saudáveis, ou seja, tinha relações com todo tipo de mulher. Não era depravado, mas também não era um monge, como ele mesmo costumava dizer. Mantinha essa prática, segundo suas palavras, apenas para garantir sua saúde física e independência mental. Ele o fazia desde os dezesseis anos e até então tudo tinha corrido bem, ou seja, não se entregara à depravação, não se apaixonara nem pegara nenhuma doença. (p. 8)

Para resolver isso, falou com um guarda florestal que havia sido caçador de seu pai, que o sugeriu “divertir-se” com Stepanida Pétchnikova, uma camponesa do local, casada com um cocheiro que trabalhava em Moscou.
Evguêni aceitou a indicação e passou um tempo gozando os prazeres da carne com Stepanida. No entanto, ele desejava casar-se, por amor – o que foi feito após conhecer Liza Ánnenskaia. Após conhecê-la, Evguêni cortou todas as ligações que tinha com Stepanida, passando a dedicar-se à sua família e à administração de suas terras.
O primeiro ano de casamento correu financeiramente mal, resultando na venda da casa de veraneio da família. Ademais, a usina de açúcar pertencente aos Irtênev estava parada, agravando ainda mais a situação.
Para piorar, Liza conseguira engravidar, mas sofrera um aborto. A situação da esposa, tão dedicada ao marido, era delicada, de modo que a Sra. Varvara Aleksêievna (mãe de Liza), que não gostava do genro, foi morar junto com os Irtênev – com a qual já morava a Sra. Mária Pávlovna, mãe de Evguêni. Depois, chegou também um tio de Evguêni, um beberrão de quem ele sequer gostava.
Neste meio tempo, o protagonista passou a encontrar Stepanida em todo lugar que ia, e as lembranças do caso entre os dois começaram a incomodá-lo. Sempre que a via (o que se tornava cada vez mais comum), as recordações voltavam com força, impelindo-o a retomar aquelas relações antigas com Stepanida, uma mulher casada, causando-lhe uma crise de consciência que se agrava ainda mais quando se encontra prestes a se tornar pai (Liza conseguira engravidar novamente).

O que o torturava agora não era o fato de estar novamente prisioneiro daquele desejo – nisso não queria nem pensar -, e sim que o sentimento estava vivo nele e era preciso estar alerta. No seu íntimo, não tinha nenhuma dúvida de que o sufocaria. (p. 32)

É interessante perceber que, sempre que o protagonista avista Stepanida, o narrador destaca alguma característica dela que lembra algum “traço diabólico”, havendo sempre um lenço vermelho, as trevas do ambiente, a cegueira em que ele caía… Somos levados a pensar que Stepanida seria esse o diabo que dá título ao livro, mas… “Tudo era tão bom, alegre e limpo dentro de casa, mas dentro dele havia sujeira, infâmia, horror” (pp. 48-49);
A própria epígrafe do livro dá uma pista de que, na verdade, o diabo é outro:

Eu, porém, vos digo que todo aquele que olhar para uma mulher cobiçando-a já cometeu adultério com ela em seu coração. E se teu olho direito te serve de escândalo, arranca-o e lança-o para longe de ti, porque é melhor para ti perderes um dos teus membros do que todo o teu corpo ser lançado no inferno. E se a tua mão direita te serve de escândalo, corta-a e lança-a para longe de ti, porque é melhor para ti perderes um dos teus membros do que todo o teu corpo ser lançado no inferno.
Mateus, V, 28-30

O final do livro? Não conto! Só chamo a atenção para um fato: se você não gostar do primeiro final, há uma versão alternativa logo depois. Você decide.


Título: O diabo
Autor: Liev Tolstói
Editora: L&PM Pocket
Categoria: Conto
Ano: 2013
Páginas: 64
Mais sobre o autor: Liev Tolstói na wikipedia
Classificação: 

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