[RESENHA] José Saramago – As pequenas memórias

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José Saramago – As pequenas memórias

Olá, amigos!
Hoje vou comentar um pouco sobre esse livro de um dos maiores autores portugueses da contemporaneidade.
Não, essa não foi a primeira obra que li do Saramago. Mas foi uma das melhores autobiografias que já li na vida.
Sinceramente, não sou muito adepto de biografias (não me lembro de haver terminado de ler nenhuma), mas essa…
Saramago não constrói sua narrativa naquele estilo clássico e linear de biografias; narra episódios de sua infância pobre no interior de Portugal, “à medida que vai lembrando”, muitos engraçados, alguns tristes; uns importantes na sua formação como escritor, outros nem tanto; alguns que foram determinantes para a construção de sua mentalidade de esquerda e ateia, outros vistos a posteriori por esse viés…

E por que “à medida que vai lembrando”?

Ora, sabemos que o texto é algo construído. A gente sabe que o texto seria construído de forma linear, se essa fosse a intenção de Saramago; mas a impressão que tenho é de que ele queria fazer do seu livro algo como uma conversa com seu leitor… E, em conversas, nossas lembranças são entrecortadas: quando falamos sobre uma coisa, outras vêm à mente (independente de ser da mesma época ou não). Daí nascem as interrupções e os assuntos entrecortados.
Saramago fala diversas vezes que “não se lembra bem quando tal coisa aconteceu”; em outras, no entanto, ele mesmo diz que “antes, falei que tal coisa aconteceu numa data; agora, tenho a certeza de que não foi bem naquele momento”… Aí explica o porquê. A impressão que me dá é que Saramago quer chamar a atenção pro fato em si, e não pra exata data em que esse fato “aconteceu”.

E por que “aconteceu”?

Novamente: o texto é algo construído. Sempre desconfio do que o Saramago nos conta – mesmo sendo autobiográfico. Num dado momento mesmo, em que fala sobre enredos de filmes nunca vistos e que ele gostava de inventar, ele nos diz:

e eu ia acumulando mentiras sobre mentiras, não muito longe já de acreditar que realmente tinha visto o que apenas estava inventando… (p. 103)

Noutro momento, em que fala sobre as poucas lembranças que guarda de seu irmão morto quando Saramago ainda era bem criança:

Em rigor, em rigor, penso que as chamadas falsas memórias não existem, que a diferença entre elas e as que consideramos certas e seguras se limita a uma simples questão de confiança, a confiança que em cada situação tivermos sobre essa incorrigível vaguidade a que chamamos certeza (p. 110).

Mas, adiante:

Esta é, pois, a minha memória mais antiga. E talvez seja falsa… (p. 111)

Por fim, ele ainda diz que:

Muitas vezes esquecemos o que gostaríamos de poder recordar (p. 130).

Sem contar, como já dito, algumas passagens realmente engraçadas, como quando ele foi flagrado, ainda criança, praticando “atos obscenos” com uma parenta: teve que ser castigado por sua mãe, mas tem a plena certeza de que ela pôs-se a rir depois…
Enfim, não é como os demais livros do Saramago, mas isso não diminui a sua qualidade. É Saramago, afinal! Sobre tempos diferentes, em que “o que parecia, era, e o que era, parecia” (p. 124). RECOMENDO, POIS, A SUA LEITURA!


Título: As pequenas memórias
Autor: José Saramago
Editora: Companhia das Letras
Categoria: Memórias autobiográficas
Ano: 2006
Páginas: 142
Mais sobre o autor: José Saramago na wikipedia
Classificação:

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5 thoughts on “[RESENHA] José Saramago – As pequenas memórias

  1. Poxa, vida. Saramago é demais. Acho que eu já virei aquela pessoa chata que não importa o que a pessoa faça, tudo é bom. Ainda mais agora que ele não vai mais fazer nada mesmo, né… Mas é essa escrita dele que torna tudo mais especial! Em breve vou falar sobre Memorial do Convento e A Viagem do Elefante no meu blog tb, isso pq eu tenho documentado, outros faz um tempinho que li, acho que vai ser meio difícil escrever algo útil, mas quem sabe? Rs
    Muito legal vc ter falado sobre esse livro, não vi mais ninguém falando…
    Até mais!! E boas leituras…
    http://1pedranocaminho.wordpress.com

    1. Saramago é sensacional mesmo, né? Há algumas coleções que quero completar, uma delas é a dele. Quando lançaram o ALABARDAS…, apenas em Portugal, meus sogros estavam lá e me trouxeram de presente, sem saber que aqui no Brasil nem havia sido lançado ainda, acredita? Teria sido um livro excepcional, pelo pouco que foi feito, tenho certeza! Obrigado pela mensagem, vou acompanhar pra ver o que vc tem a dizer sobre esses livros dele (não li ainda A VIAGEM DO ELEFANTE…). 🙂

      1. Estou planejando falar sobre meu TCC enquanto estiver lendo Irmãos Karamazov, acho que vão uns 4 ou 5 posts, e o tema foi Saramago, espere um pouco para ler A Viagem do Elefante, não é um livro comum, mas tenho visto algumas pessoas o subestimando! Bom, hj num blog desses de amo livros, vi alguém falando mal do Dostoievski, então td é possível! Hehe
        Obs. Ok que a pessoa tenha o direito de não gostar, mas não precisa falar mal, né. Até mais!!

      2. Eita, Irmãos Karamazov tá na minha lista de leitura do próximo ano, haha… Foi como eu disse um dia desses, por mim eu só ficaria nos russos! Falar mal do Dostoievski é complicado mesmo… Não gostar tudo bem, mas falar mal! Sei não… Quanto ao Saramago, vou tentar um mestrado em literatura, e uma das opções de pesquisa é justamente sobre ele! Você escreveu exatamente sobre o quê? Até!

      3. Eita, é uma longa história! Resumidamente: O Amós Oz tem um livro sobre os inícios de livros, como eles são importantes e tal, ele diz que são “contratos entre autor e leitor”. Eu analisei os inícios de O Memorial do Convento e A Viagem do Elefante, mostrando como se dá esse contrato em relação à leitura do livro. O Memorial do Convento é Saramago em plenitude, então é um contrato meio difícil, A viagem do elefante explora os mesmos tempos, mas o escritor dá a mão ao leitor, o ajuda a entender. Basicamente isso!

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