[RESENHA] Erico Verissimo – Ana Terra

ana terra
Erico Verissimo – Ana Terra

Dia desses, escrevendo um conto novo, me veio à mente a inspiração para uma das personagens. Encaixando-se naquilo que eu desejava escrever, pensei em uma com as características de Ana Terra, personagem de um livro homônimo e d’O Tempo e o Vento, ambos do Erico Verissimo. No entanto, pra isso, seria bom saber direito como ela era; foi por isso que resolvi ler essa obra, um clássico da literatura regionalista brasileira.
Engraçado que, aqui pras bandas de cima, quando se fala em literatura regionalista, geralmente se pensa automaticamente nos autores daqui do Nordeste; ou, pra ser mais correto, nos autores que falaram sobre o Nordeste. No máximo, o mais ao sul a que chegamos é Minas, apesar de eu refutar essa pecha de regionalista a Guimarães Rosa (ele é muito mais que isso – na verdade, ele e muitos outros, mas isso é assunto para outro post). De toda forma, foi com certa resistência que resolvi encarar Ana Terra.
Sabe quando você tem um preconceito? Ou um pré-conceito? Como todos, felizmente, esse era infundado. Que livro massa!
Achei que fosse encontrar uma leitura enfadonha, arrastada, repleta de termos desconhecidos (não só por se tratar de palavras não adaptadas à minha realidade, mas sim por excesso de erudição – como sabemos que alguns escritores, infelizmente, o fazem); que fosse ter que ficar direto recorrendo ao dicionário… Qual nada!
O livro conta a história de Ana Terra (ooooh!), a filha de Maneco e Henriqueta Terra, para quem, sempre que ventava, alguma coisa acontecia. Aqui, lembro que Ana Terra é parte d’O Tempo e o Vento, obra-prima de Erico Verissimo, uma verdadeira saga sobre a formação do Rio Grande do Sul.
A história se passa no final do século XVIII, um período recheado de conflitos entre portugueses, espanhóis e indígenas naquela região do sul do “Brasil”. Ana Terra vivia em uma estância isolada, no interior “gaúcho”; seu cotidiano, como de muitos daquela época, era na lavoura, sendo a natureza sua principal companheira e de onde sua família tirava o sustento. Assim, vivia em constante estado de vigilância, temendo invasões, saques e pilhagens.
Certo dia, Ana encontra, à beira de um regato, ferido, Pedro Missioneiro. Sua família o acolhe – Maneco Terra muito a contragosto, pois desconfiava do que poderia advir à sua família se se relacionasse com um índio, mas aos poucos passa a usufruir de sua mão-de-obra nos afazeres no campo. Pedro Missioneiro, com uma cultura sofisticada, pareceu encantar pouco a pouco a família, de modo que a repulsa inicial de Ana Terra à sua figura acaba convertendo-se em desejo. Afinal, ela ali, sozinha, sem nunca ter tido contato com um homem… O que acontece em seguida já se pode imaginar. Isso porque não chegamos nem à metade do livro!
É de se supor, então, a questão da honra – “Honra se lava com sangue!” (p. 43).
Claro que Ana Terra engravida.
Mas o que vem depois… Não vou dar spoiler. Espero, de verdade, que vocês leiam. E apreciem a leitura tanto quanto eu!


Título: Ana Terra
Autor: Erico Verissimo
Editora: Companhia das Letras
Categoria: Romance
Ano: 2005
Páginas: 112
Mais sobre o autor: Erico Verissimo na wikipedia
Classificação: 


Trechos

. Patriota? Ele está mas é defendendo as estâncias que tem. O que quer é retomar suas terras que os castelhanos invadiram. Pátria é a casa da gente. (p. 11)
. Parecia que a terra ia se entranhando não só na pele como também na alma deles. (p. 14)
. Sem serventia como quase tudo que é bonito. (p. 29)
. Gente moça – achava ele – gostava muito de festa, de barulho e de bobagens… (p. 30)
. Pra essas éguas da cidade não há cabresto nem palanque. (p. 31)
. Era claro que, quando havia uma questão entre esses graúdos e um pobre-diabo, era sempre o ricaço quem tinha razão. (p. 32)
. Seus irmãos eram assassinos. Nunca mais poderia haver paz naquela casa. Nunca mais eles poderiam olhar direito uns para os outros. O segredo horroroso havia de roer para sempre a alma daquela gente. (p. 48)
. Queria viver, isso queria, e em grande parte por causa de Pedrinho, que afinal de contas não tinha pedido a ninguém para vir ao mundo. Mas queria viver também de raiva, de birra. A sorte andava sempre virada contra ela. Pois Ana estava agora decidida a contrariar o destino. Ficara louca de pesar no dia em que deixara Sorocaba para vir morar no Continente. Vezes sem conta tinha chorado de tristeza e de saudade naqueles cafundós. Vivia com o medo no coração, sem nenhuma esperança de dias melhores, sem a menor alegria, trabalhando como uma negra, e passando frio e desconforto… Tudo isso por quê? Porque era a sua sina. Mas uma pessoa pode lutar contra a sorte que tem. Pode e deve. (p. 71)
. Quando urubu anda sem sorte até nas lajes se atola. (p. 76)
. Murmuravam-se histórias a respeito da maneira como ele conseguira seus muitos campos. A lei não permitia que uma pessoa possuísse mais de três léguas de sesmarias, mas Ricardo Amaral, seguindo o exemplo astuto de muitos outros sesmeitos, recebera as suas três léguas e pedira mais sesmarias em nome da esposa, dos filhos e até dos netos que ainda estavam por nascer. (pp. 78-79)
. Sou potro que não aguenta carona dura de ninguém. (p. 79)
. Mulher, arma e cavalo de andar, nada de emprestar. (p. 80)
. Ninguém vive só de pão, mas só de carne pode viver. (p. 81)
. Este mundo velho é assim mesmo. Não há gratidão. (p. 84)
. Guerra era bom para homens como o coronel Amaral e outros figurões que ganhavam como recompensa de seus serviços medalhas e terras, ao passo que os pobres soldados às vezes nem o soldo recebiam. (p. 88)
. Para que tanto campo? Para que tanta guerra? Os homens se matavam e os campos ficavam desertos. Os meninos cresciam, faziam-se homens e iam para outras guerras. Os estancieiros aumentavam as suas estâncias. As mulheres continuavam esperando. Os soldados morriam ou ficavam aleijados. (p. 91)
. Vamos continuar aqui embaixo abandonados e esquecidos como sempre. Mas na hora do aperto eles vêm com esses pedidos de auxílio, porque o país está mal, porque isto e porque aquilo. (p. 97)


Curiosidade

Não, você não está enganado: esse sobrenome não lhe é estranho. Erico Verissimo é pai de outro escritor famoso: Luis Fernando Verissimo.

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