[RESENHA] Juarez Barroso – Mundinha Panchico e o Resto do Pessoal

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Juarez Barroso – Mundinha Panchico e o Resto do Pessoal

Há tempos achei esse livro em um sebo, comprei, e só agora tive a oportunidade de lê-lo. Se soubesse que era bom assim (mentira, eu sabia há muito tempo), já teria lido muito antes!
À época com 34 anos, Juarez Barroso ganhou o prêmio José Lins do Rego de 1968 com essa obra, dividida em duas partes e que reúne nove contos muito bons de se ler. As histórias são muito bem contadas, com traços de humor, amor, mortes e sentimentos vários. São retratos do Ceará de então, tanto do interior como da sua capital Fortaleza (seu subúrbio, principalmente). É bom que se fale, no entanto: hoje em dia, ainda considero Fortaleza uma cidade provinciana; então, muitas vezes, me peguei traçando paralelos entre aquela época e hoje em dia. E ri. Bastante. Das (muitas) semelhanças.
A primeira parte, Sagrada Família, envolve histórias do interior. Ou, como na orelha do livro,

Ali não muito longe de Fortaleza, cultivaram-se e ainda se cultivam os valores que gravitam em torno da “Sagrada Família” (I), tanto mais digna, louvada e admirada quanto mais léguas tiverem suas propriedades, mais inquestionável for a exclusividade de suas mulheres e movimentada a crônica das valentias e das proezas sexuais de seus varões, a quem compete zelar para que ninguém toque em vão no sacrossanto clã.

Nesta parte, incluem-se os seguintes contos:

  • Estória de Seu Armando e de seu Amor: sobre a expulsão da amante de Seu Armando, um fazendeiro já velho, por seus próprios filhos;
  • Estória de D. Nazinha e de seu Cavalo Encantado: neste, conta-se a história da compra de um cavalo, a um preço altíssimo, por Capitão Teófilo e dado a sua esposa, D. Nazinha, para mostrar o seu poder. Para mim, o melhor conto do livro;
E então, na frente de todos, o Capitão fez aquilo que espantou, que muitos não compreenderam, mas não deixaram de sentir. Deu numa forma que ninguém esperava a prova maior de sua riqueza, firmando no tempo e na geografia seu prestígio de senhor dali, para ninguém duvidar, na altura por muito poucos alcançada (de Maranguape à Serra de Baturité, talvez que só por D. Libânia, da Uruguaiana, e o Coronel Manuel Paula, do Trapiá), ele, Teófilo, cabra que começara a vida comboiando, tangendo burro no sol quente. De cima da sela falou:
– Biel.
– Inhô, padrinho?
– Este cavalo, de hoje por diante, é o da sela de D. Nazinha. (…)
  • O Trato: uma história de vingança, na qual dois irmãos (Duda e Geraldo) procuram se vingar do assassino do pai deles.

A segunda parte, Os Hereges, por sua vez, já traz as histórias da capital (ou, pra ser mais exato, do seu subúrbio). Tudo se assemelhando bastante ao real e ao atual:

  • Seu Mozart e o Povo da Rua conta a história da família do Seu Mozart, um homem extremamente moralista, mas que, ao beber, transforma-se e passa a brigar com quem se mete no seu caminho;
  • O Ex-Operário Expedito em sua Maior Felicidade traz um dia na vida de Expedito, um homem que, ao receber o dinheiro do seguro que lhe era devido por conta de um acidente em que perdera dois dedos, comemora sentindo-se rico: passa o dia no bar, bebendo e pagando bebida para outros, conhecidos e desconhecidos;
  • Primeira Comunhão de Filha de Pobre: um momento de alegria na vida de Clarinha, uma pobre coitada;
  • Isaura, Japi e o Marido: sobre a loucura de Isaura e seu marido (Japi é o cachorro de estimação com quem Isaura permanentemente entabula conversas) – esse foi um dos contos que mais ri, pois consegui visualizar bem as conversas entre Isaura e Japi;
  • Cantar de Amigo de Mundinha Panchico: o dia em que Mundinha Panchico, dona de um bordel, localizado na casa nº 1043, foi presa. O mundo caiu?;
  • Incursão na Vida Sentimental de Alzira Ferreira Lima, Boneca na Intimidade, sobre a espera de Boneca pelo seu amante, Etevaldo, jogador de futebol.

Não preciso dizer, então, que esse livro tá MAIS DO QUE RECOMENDADO, né?


Título: Mundinha Panchico e o Resto do Pessoal
Autor: Juarez Barroso
Editora: José Olympio
Categoria: Contos
Ano: 1969
Páginas: 141
Mais sobre o autor: http://www.jornaldepoesia.jor.br/juarezbarroso.html#bio
Classificação:

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2 thoughts on “[RESENHA] Juarez Barroso – Mundinha Panchico e o Resto do Pessoal

    1. Fico tão feliz quando leio comentários como esse seu, Val! O meu intuito, com este blog, é justamente disseminar alguns autores, conhecidos ou não. Fazê-los ser lidos, que é vontade maior de qualquer escritor! Pode deixar que vou passar a seguir seu blog tb! Beijos!

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