[CONTO] Praia de Iracema – Rafael Caneca

Três quadras de onde Iracema se encontrava à espera do fim do turno para poder retornar para casa, o esgotado mar às suas costas revoluteava-se, indo e voltando em fortes ondas, lembrando-a que sua vida seria eternamente assim: como uma ressaca.

– Maldita vida! – resmungou para a escuridão.

Não foi sempre desse jeito. Num passado distante, com outro nome que fez questão de esquecer, costumava fitar o horizonte, ignorando o quanto aquele mar já estava poluído e distinguindo apenas o seu verde bravio: guardava a esperança de ser resgatada por um salvador de outra pátria, para não ser mais pária em sua própria terra. Ainda jovem, no entanto, percebeu que a realidade ia além de romances idealizados, pois, com treze anos, foi oferecida para o tio Moacir como moeda de troca para saldar uma dívida da mãe.

Foi a última vez que chorou, menos pelo ato em si e mais pelo crescimento forçado, acompanhado da certeza de que o mar perdera seu verde e era, de fato, imundo. Assumiu-se à noite como Iracema.

Desde então, perdeu as contas de quantas pessoas gozaram seu corpo desvirginado e seus lábios – não de mel, mas de fel. Por cinquentinha, topava qualquer negócio: entregava-se de corpo, mas não de alma, que havia muito naufragara naquelas ondas sujas que insistiam no seu ir e vir.

“Antes eu tivesse morrido também”, lamentava-se.

Seus pensamentos só eram interrompidos quando, na escuridão, um carro ousava aproximar-se. Nele, um cliente em busca dos seus serviços. Entrava, satisfazia-o, recebia e saía. Esse era o ritual. Um ritual de dor e sofrimento, em que Iracema transformava seu grito abafado de desespero em falsos gemidos de prazer.

“Essa tormenta há de acabar”.

E acabou. No dia seguinte, o corpo de Iracema foi encontrado num carro abandonado à beira-mar. Um discreto esboço de sorriso percebia-se no seu rosto, enquanto, num mar sereno ao fundo quase não havia ondas.

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