Sobrevivemos

Ansiava, há dias, por aquele momento. Afinal, fazia anos que o time para o qual torço não jogava na minha cidade, de modo que tudo, simplesmente tudo, nos dias que antecederam ao jogo em si girava em torno da partida. O nervosismo, que já seria considerado natural, ainda teve um upgrade depois do revés inesperado na primeira perna da eliminatória, o famigerado jogo de ida na nossa própria casa-estádio – arrisco-me a dizer que onze em cada dez pessoas acreditavam que meu time ganharia, e, dos onze, nove criam que seria de goleada. Mas, como diria o grande sábio, “o futebol é uma caixinha de surpresas”, e fomos derrotados. Sim, me incluo entre os componentes do esquadrão, sinto-me como um deles, compartilho a alegria de suas vitórias, sofro com suas derrotas, esmoreço com suas performances modorrentas.
Entramos em contagem regressiva para a compra dos ingressos. Informações desencontradas acompanhadas daquele tratamento de excelência dispensado, de um modo geral, aos torcedores visitantes. Torcedores que, não nos esqueçamos, são consumidores também.
– Hoje ainda não – diziam.
– Dizem que só amanhã… – duvidavam.
– Será que vai ser só na loja do time adversário? – indagavam.
– Creio que poderemos comprar na Internet – confiavam.
– Será que já tá vendendo? – ansiavam.
– Calma! – pediam, acredito que roendo as unhas de nervosismo.
– Ih, já acabou na internet, agora só no estádio – desanimavam.
– Tem meia? – questionavam o óbvio.
– Já tenho o meu! – comemoravam.
– Só inferior – relatavam.
– Agora lascou, será que tem meia? – insistiam na dúvida.
– Esgotaram os ingressos ontem mesmo! – garantiam.
– Oxe, amigo meu acabou de comprar. Superior – desconfiavam.
Pronto, pronto. Passou. Consegui vencer o desafio de comprar o tíquete que dava acesso ao local da partida, agora só restava esperar. E combinar com os amigos os detalhes de ida e volta.
– Quem vai dirigindo? – perguntavam, esperando o primeiro a se oferecer.
O silêncio durou mais do que o esperado, até os minutos finais antes de entrar no carro.
– Tudo bem, eu vou – respondi, resignado, pegando a chave do carro.
Vi o sorrisinho no rosto de todos, acompanhado do “tsss” das latinhas de cerveja sendo abertas.
Todos devidamente trajados, tomamos nossos assentos. Chave girada, som ligado, expectativas a mil, vamos!
Era uma quarta-feira, seis horas da tarde. O jogo estava marcado para as sete e meia, mas o trânsito caótico fim de expediente sempre nos prega peças.
Traçamos rotas, ajudados pelo waze. Ajudados, mas não confiando cegamente: afinal, o aplicativo não tem como saber qual lado seria mais seguro para a torcida visitante entrar. Sim, pra você que não tem o costume de ir a uma partida de futebol, há o lado da casa e o lado dos visitantes, para não misturar as torcidas na entrada. Isso em todos os estádios do Brasil – e, para não ser injusto, em muitos outros países também. Seguimos o waze até onde pudemos; subvertemos apenas para seguir rumo ao nosso portão de entrada. Subvertemos, pois gato escaldado tem medo de água fria.
Porém, como disse antes, o trânsito caótico fim de expediente sempre nos prega peças. Não que o engarrafamento estivesse insuportável, já passei por outros bem piores; mas havia um gargalo, e os veículos caminhavam a passos de tartaruga. Isso, entretanto, não nos desanimou; continuamos conversando, descontraídos, contando piadas e discutindo o destino da Nação (mentira, falávamos principalmente sobre a iminente partida).
Quando, de repente, não mais que de repente… Como que de uma geração espontânea, surgiram. Vimo-nos ali, lado a lado com eles. Éramos cinco; eles, mais de cinquenta. Estávamos no carro; eles, a pé. Nós e eles, uniformizados. Mas cada qual com os uniformes do time para o qual torcíamos: eles com os deles, nós com os nossos. Nós e eles.
Tentei manter a calma, mas a verdade é que o pé tremia no pedal do carro. Continuávamos lado a lado, mas não havíamos sido notados. Ainda.
Silenciei-me, sequer sei sobre o que falamos naqueles momentos. Só queria chegar ao estádio o mais rápido possível.
O meu silêncio se transformou em temor de todos nós quando, num átimo, um deles viu minha camisa. E começou a apontar. E a gesticular pros demais dos seus. Um, dois, cinco, dez: começaram a apontar. Provocar. Xingar. Esperaram contato visual, respostas, qualquer comentário que fosse. Ou, sabe-se lá?, não esperaram nada mesmo. Alguns pegaram pedras, um dos nossos confidenciou depois (confesso que não tinha olhos para ver nada disso, que cegaram para me lembrar de mim, pequenininho, jogando futebol com os chinelos nas mãos). A vida passou diante dos meus olhos como um flash.
O fato é que não fizemos nada. Parados dentro do carro, parados no engarramento, permanecemos do mesmo jeito: não tínhamos para onde ir e aguardamos o pior.
Quando, de repente, não mais que de repente… Entre eles, bastou um. O primeiro. O líder. Tenho certeza de que ele viu o temor em nossos olhos e nossa súplica silenciosa de perdão por passar, ao lado de sua turba, com camisas de outras cores. Então, num gesto simples, mas decisivo, ele ordenou aos seus: que nos deixassem em paz. Pediu apenas, com gestos, que tirássemos nossas camisas até chegar aos estádios, o que foi imediatamente atendido. Mas, assim mesmo, foi um simples pedido: sem raiva, sem ameaças diretas, sem ofensas.
A bandeira branca foi hasteada. E surtiu pronto efeito. Nós passamos a seguir nosso caminho, e eles o deles. Rumo ao mesmo destino.
Dizem que o nosso suspiro uníssono de alívio foi ouvido a quilômetros de distância.
O quê? Achou exageradas e dramáticas demais as minhas palavras? Sem dúvida, concordo; foi intencional. Mas, reflita um pouco mais: exageradas ou dramáticas são as minhas palavras ou as reações das pessoas em um simples jogo de futebol?

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