[CRÔNICA] Fortalezas – Rafael Caneca

Há uns vinte anos, meus pais se mudaram para a Baixa Aldeota, onde moram até hoje. Saímos do lendário Jardim de Nazaré, ladeante da favela do Lagamar, porque eles, antevendo uma escalada na violência alencarina e temendo pelo desenvolvimento dos seus rebentos, fizeram um esforço sobre-humano para se mudar para um lugar mais seguro. Um lugar que nos permitisse, então, chegar ao prédio e de lá sair tranquilos e que nos permitisse transitar a pé sem medo, evitando preocupações sempre que seus filhos precisassem sair de casa para qualquer lugar que fosse. A pé ou de ônibus.
Como eu aproveitei tudo isso! Joguei muita bola no asfalto da Monsenhor Bruno, em frente ao meu prédio, e a maior alegria para nós, jogadores mirins, foi quando a Robério Távora trocou o seu calçamento por asfalto: ganhamos, então, um campo em que o jogo rolava praticamente sem interrupções, já que pela rua-travessa quase não passava carro naquela época. Ainda assim, às vezes andávamos quarteirões e quarteirões, só para arrancar o chaboque dos dedos em outras vielas.
Mas não andava só pra jogar bola. Sem limites nem fronteiras, explorava o máximo que podia a força dos meus pés e saía caminhando pela cidade, na maioria das vezes acompanhado, mas noutras sozinho mesmo. Visitava amigos e ia pro estúdio, centro da cidade, Dragão do Mar ou shoppings. Não interessava o dia ou a hora: de manhã, de tarde ou de noite, de domingo a domingo, bastava ter vontade. Guardo na memória as vezes em que saía a pé, dez horas da noite, só para ir “bem ali” com amigos.
Isso não significa que eu tenha passado incólume – fui assaltado umas duas ou três vezes, mas são ossos do ofício. Superei os assaltos, continuei caminhando.
As crianças de hoje, no entanto, vivem em fortalezas. Construídas em uma Fortaleza a que todos nós pertencemos, são bolhas a proporcionar, apenas dentro dos limites dos seus altos e fortificados muros, o máximo de segurança e conforto. Sempre me pergunto se essa proteção e segurança é para elas ou para seus pais. Afinal, é da natureza da criança correr solta: ela gosta é de liberdade.
Pois, para conhecer o mundo, temos que andar. Livres. Sem amarras, sem temores, sem medo, sem muros.

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