[RESENHA] Mia Couto – Vozes anoitecidas

Mia Couto – Vozes anoitecidas

O que mais dói na miséria é a ignorância que ela tem de si mesma. Confrontados com a ausência de tudo, os homens abstêm-se do sonho, desarmando-se do desejo de serem outros. Existe no nada essa ilusão de plenitude que faz parar a vida e anoitecer as vozes.
(Texto de abertura, p. 17)


Demorei a conhecer Mia Couto. Mas, como diz o velho deitado ditado, “antes tarde do que nunca”. No caso, mesmo que tivesse sido à noite, teria valido a pena. Porque o importante mesmo é conhecê-lo.
Não sei de outro, de modo que, para mim, ele é o escritor moçambicano com maior destaque (não gosto de dizer “o maior”, “o melhor”, “o mais importante”…). É bem verdade que torci o nariz quando o vi, no prefácio, sendo comparado ao Guimarães Rosa e, em outros locais, ao Gabriel García Márquez; mas, tão longo comecei a ler este Vozes anoitecidas, entendi perfeitamente as comparações.
Como se vê na contracapa da edição que li, “nesta coletânea de [12] contos … realidade e ficção ganham novos contornos, misturando-se de maneira inextrincável. Tanto fatos da história moçambicana surgem recontados em narrativas com textura de sonho, como o contrário também se dá, e o que é apresentado como impossível se revela uma descrição precisa de circunstâncias palpáveis“. Ou seja: há um quê de realismo fantástico (GGM), de maravilhoso e de estranho (claro que em termos literários) nos doze contos apresentados. Há, também, traços de Saramago – e não há como negá-lo em A história dos aparecidos, um conto sobre a dificuldade de dois homens em comprovar que estão vivos, após haverem desaparecido em um desastre natural. Tudo isso com uma prosa poética muito bem construída, à maneira rosiana, “imitando” até mesmo o uso de neologismos – que tanto são carregados semanticamente quanto são belos, como nos casos de “desconseguiu”, “desvoou” e “rapidando”, por exemplo.
Os contos, “no entretanto”, são bem mais curtos que os do cordisburguense. Há quem goste, há quem desgoste disso: eu, particularmente, prefiro contos mais curtos, então a leitura do moçambicano fluiu bem mais fácil do que quando li o brasileiro. Tanto é verdade que já providenciei outro livro dele para ler. 🙂
Diferentemente das outras resenhas que fiz de livros de contos, não destacarei nenhum em específico, já que gostei de todos; em vez disso, postarei exemplos de trechos bem poéticos em cada uma das histórias:

A fogueira
. Em volta era o nada, mesmo o vento estava sozinho. (p. 21)
. Todo o silêncio ficou calado para ela escutar o regresso do marido. (p. 22)
. Neste deserto solitário, a morte é um simples deslizar, um recolher de asas. Não é um rasgão violento como nos lugares onde a vida brilha. (p. 24)

O último aviso do corvo falador
. Era um pedaço do céu que estava-lhe dentro. (p. 30)
. Era uma solitária de acidente, não de crença. (p. 31)

O dia em que explodiu Mabata-bata
. Fugir é morrer de um lugar. (pp. 42-43)

Os pássaros de Deus
. Mais peregrino que o rio não conheço. As ondas vão, vão nessa ida sem fim. (p. 51)
. A dor é poeira que nos vai vazando a luz. (p. 52)
. Está ver o caçador, maneira que ele faz? Prepara a zagaia momento que ele vê a gazela. Enquanto não, o pescador não pode ser o peixe dentro do rio. O pescador credita uma coisa que não vê. (p. 52)

De como se vazou a vida de Ascolino do Perpétuo Socorro
. Tristeza mais triste é aquela que não se ouve. (p. 62)

Afinal, Carlota Gentina não chegou de voar?
. Eu somos tristes. Não me engano, digo bem. Ou talvez: nós sou triste? Porque dentro de mim, não sou sozinho. Sou muitos. E esses todos disputam minha única vida. Vamos tendo nossas mortes. Mas parto foi só um. Aí, o problema. Por isso, quando conto a minha história me misturo, mulato não das raças, mas de existências. (p. 75)
. O futuro quando chega não me encontra. (p. 76)
. Mas a morte é uma guerra de enganos. As vitórias são só derrotas adiadas. (pp. 78-79)
. Mas eu daqui da cela só vejo as paredes da vida. (p. 80)
. Agora, já sei: os mortos nascem todos no mesmo dia. Só os vivos têm datas separadas. (p. 81)
. Nossa voz, cega e rota, já não manda. Ordens só damos nos fracos: mulheres e crianças. Mesmo esses começam a demorar nas obediências. O poder de um pequeno é fazer os outros mais pequenos, pisar os outros como ele próprio é pisado pelos maiores. Rastejar é o serviço das almas. Costumadas ao chão como é que podem acreditar no céu? (pp. 82-83)
. Fora de casa sempre faz frio. (p. 83)

Saíde, o Lata de Água
. Sempre que se recordava trabalhavam facas dentro da alma. (p. 90)

As baleias de Quissico
. Eu não disse que era preciso ter fé, mais fé do que dúvida? (p. 102)

De como o velho Jossias foi salvo das águas
. Os meses estão todos no ventre uns dos outros. (p. 105)
. Mas o destino da morte é ser sempre muita. (p. 109)
. A madeira é lenha antes mesmo de arder. (p. 112)
. Salvaram-no da morte, não o salvaram da vida. (p. 112)
. Salvar um alguém deve ser serviço completo … Não é levantar a pessoa e depois abandonar sem querer saber o depois. Não chega ficar vivo. Palavra da minha honra. Viver é mais. (p. 112)
. A mentira da noite é matar o cansaço dos homens. (p. 114)

A história dos aparecidos
. Uma pessoa não é um divórcio, um milando. (p. 118)
. Como somos injustos com nosso corpo. De quem nos esquecemos mais? É dos pés, coitados, que rastejam para nos suportar. São eles que carregam tristeza e felicidade. Mas como estão longe dos olhos, deixamos os pés sozinhos, como se não fossem nossos. (p. 120)
. Um homem que abandona um sítio porque foi derrotado, esse homem já não vive. Não tem mais lugar para começar. (p. 121)

A menina de futuro torcido
. O mundo tem sítios onde para e descansa a sua rotação milenar. (p. 129)
. Esperar não é a mesma coisa que ficar à espera. (p. 130)

Patanhoca, o cobreiro apaixonado
. Se invento é culpa da vida. A verdade, afinal, é filha mulata de uma pergunta mentirosa. (p. 135)
. As alegrias saíram-lhe da vida, esqueceram de voltar. (p. 137)
. Um homem chora? Sim, se lhe acordam a criança que tem dentro. (p. 142)

Não preciso dizer, então, que esse livro tá MAIS DO QUE RECOMENDADO, né?


Título: Vozes anoitecidas
Autor: Mia Couto
Editora: Companhia das Letras
Categoria: Contos
Ano: 2013
Páginas: 152
Mais sobre o autor: http://www.companhiadasletras.com.br/autor.php?codigo=01846
Classificação: 

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