[RESENHA] Moreira Campos – O Puxador de Terço

Moreira Campos – O Puxador de Terço

É uma humanidade singular e patética, pouco explorada em literatura, essa que aparece nas pequenas histórias de Moreira Campos. Personagens que não sofrem o menor processo de idealização, ou de intenção propagandística, pró ou contra. (Rachel de Queiroz, O Escritor Moreira Campos)


Massaud Moisés, no seu A criação literária – poesia e prosa, diz que o conto tem um “mesmo e único escopo, o de provocar no leitor uma só impressão, seja de pavor, piedade, ódio, simpatia, ternura, indiferença etc., seja o seu contrário“. Edgar Allan Poe chama a isso “unidade de efeito ou de impressão“.

É impressionante como isso é alcançado com os 32 contos de Moreira Campos neste O Puxador de Terço. Nos enternecemos, sentimos simpatia, ódio, asco, piedade – às vezes, em uma história, esses sentimentos são misturados ao longo do texto, sobressaindo apenas um ao final.

Falando sobre Moreira Campos, Batista de Lima, um grande estudioso da literatura cearense (sim, pra quem não sabe, MC é da terrinha), caracteriza a narrativa moreiriana como:

  • uma tendência para o uso de elementos descritivos em paralelo aos narrativos;
  • os vazios deixados para serem preenchidos pelo leitor;
  • a eliminação de comentários e interpretações paralelas;
  • a quase ausência de diálogos;
  • a atuação do tempo como elemento corrosivo sobre os personagens;
  • o uso das repetições como forma de superação das dificuldades de relacionamento entre as diferentes classes de pessoas;
  • a ironia;
  • a luta pela concisão.

Em O Puxador de Terço, os contos são curtos (nenhum com mais do que 4 páginas), obedecendo àquilo que MC mais perseguiu ao longo de toda a sua obra. Com uma eterna busca pela concisão, saiu das histórias com mais de 10 páginas no início de carreira para aquelas com 1 ou 2 ao final dela – e, não raras vezes, reescreveu contos já publicados, reduzindo-os e lançando-os em novas edições de suas obras.

Nesta obra, vemos erotismo, suspense, tragédias, humor e a constante presença da morte; tudo aquilo que nos envolve e envolve a vida de pessoas bem próximas de nós. Podemos dialogar facilmente com os narradores, ou mesmo com as personagens, e o recurso da repetição, utilizado pelo autor em praticamente todos os contos, é um facilitador neste sentido.

Os vocábulos são simples (não simplórios, é bom que se esclareça); a leitura, agradabilíssima. Aprende-se muito lendo Moreira – principalmente, sobre como escrever.

Dos 32 contos, destaco os 5 que mais me agradaram: Os Anões, As Corujas, O Buraco da Fechadura, A Virgem e Os Pesados Lagartos.

Em Os Anões, toda a história é construída em cima da angústia de um casal de anões assaltada em sua própria residência. No episódio, sobressai a provocação do ladrão, que, a todo momento, pergunta à anã se ela aguentaria mesmo um homem, “um homem que tenha o negócio bem grosso” (p. 15). A humilhação, o temor do estupro e – por que não? – a pena que sentimos dos protagonistas é fruto de uma narrativa bem elaborada.

Já em As Corujas, um dos contos mais conhecidos de Moreira Campos, a morte é uma constante, que caminha sempre junto à vida. O protagonista é um velho que trabalha num nosocômio, encarregado de cuidar dos mortos, cobrindo-lhes os corpos e cuidando para que as corujas não “pousem sobre o peito dos mortos, arranhando-lhes os olhos parados“. E vale a lembrança: “Em qualquer parte, na noite, estarão as corujas” (p. 49).

O Buraco da Fechadura, por sua vez, já traz no próprio título a prenunciação do que vai se narrar: é um episódio essencialmente de voyeurismo. Não vou dizer mais para evitar spoilers.

Em A Virgem, vemos a história de uma pianista de boate (ou buate). A boate, local essencialmente de danças vulgares, discussões chulas e desrespeito ao outro, é descrita em contraposição ao que antes existia naquele local: o palacete do excelentíssimo Barão. A decadência é notável, emergindo dos parágrafos bem construídos.

Por fim, Os Pesados Lagartos envolve traição, mesquinhez, egoísmo, ciúme… Parece que descrevo uma novela global. Será?

Enfim, não preciso dizer que RECOMENDO MUITÍSSIMO.


Título: O Puxador de Terço
Autor: Moreira Campos
Editora: Livraria José Olympio
Categoria: Contos
Ano: 1969
Páginas: 170
Mais sobre o autor: “Moreira Campos nasceu em Senador Pompeu no dia 6 de janeiro de 1914. É filho do português Francisco Gonçalves Campos e Adélia Moreira Campos. Ingressou na Faculdade de Direito do Ceará, bacharelando-se em 1946. Licenciou-se em Letras Neolatinas em 1967, na antiga Faculdade Católica de Filosofia do Ceará. Na área do magistério iniciou-se como professor de Português, Literatura e Geografia em colégios. Exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará, Curso de Letras, como titular de Literatura Portuguesa. Integrante do Grupo Clã. Pertenceu à Academia Cearense de Letras. Faleceu em Fortaleza, no dia 7 de maio de 1994. Deixou as seguintes coleções: Vidas Marginais (1949), Portas Fechadas (1957), distinguido com o Prêmio Artur de Azevedo, do Instituto Nacional do Livro, As Vozes do Morto (1963), O Puxador de Terço (1969), Os Doze Parafusos (1978), A Grande Mosca no Copo de Leite (1985) e Dizem que os Cães Vêem Coisas (1987). Seus Contos Escolhidos tiveram três edições, Contos foram editados em 1978 e Contos – Obra Completa se publicaram, em dois volumes, em 1996, pela Editora Maltese, São Paulo, com organização de Natércia Campos. Tem também um livro de poemas, Momentos (1976). Participou de diversas antologias nacionais. Algumas de suas peças ficcionais foram traduzidas para o inglês, o francês, o italiano, o espanhol, o alemão.” (fonte: Moreira Campos – Wikipedia)
Classificação:


. Curiosidade
O nome de Moreira Campos é praticamente unânime quando se pergunta a escritores consagrados sobre autores e influências na escrita, seja de contos, seja de outros gêneros. É tido como um dos maiores contistas brasileiros do século XX.

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