[RESENHA] Lima Barreto – Recordações do escrivão Isaías Caminha

Lima Barreto – Recordações do escrivão Isaías Caminha

Não é a ambição literária que me move o procurar esse dom misterioso para animar e fazer viver estas pálidas Recordações. Com elas, queria modificar a opinião dos meus concidadãos, obrigá-los a pensar de outro modo; a não se encherem de hostilidade e má vontade quando encontrarem na vida um rapaz como eu e com os desejos que tinha há dez anos passados. Tento mostrar que são legítimos e, se não merecedores de apoio, pelo menos dignos de indiferença. (p. 72)

Romance de estreia, Recordações do escrivão Isaías Caminha guarda muitas referências autobiográficas, abordando o preconceito racial, o jogo de interesses e a subordinação da imprensa à elite dirigente, do final do século XIX – um triste retrato que, em muitos pontos, se mantém até os nossos dias” (fonte: a contracapa do próprio livro).


Isaías, um mulato pobre que mora no interior, no final do século XIX, vai para a “cidade grande” em busca do sonho de ser doutor. Só pelo título do livro, percebe-se que a empreitada não deu muito certo…

Confesso que já tinha ouvido muitas vezes o nome desse livro nos meus estudos, mas nunca havia ido muito a fundo atrás de conhecê-lo. Desta vez, como foi objeto de estudo em uma disciplina na faculdade, não pode me furtar de lê-lo. AINDA BEM! Se eu soubesse antes aquilo dito por Monteiro Lobato (e que vi na orelha da minha edição), teria lido já há mais tempo: “… foi ele [Lima Barreto] o introdutor em nossa literatura do romance de crítica social sem doutrinarismo dogmático“.

Sua atualidade impressionou. O preconceito racial e o poder manipulador da imprensa (já chamado, naquele tempo, de “o quarto poder”) foram as questões que mais atraíram minha atenção. Além disso, vemos que nem sempre os mais competentes se destaca(va)m, num mundo coberto de hipocrisia, falsidade e troca de favores. Alguma semelhança com o panorama atual?

A se ressaltar, também, as inúmeras referências a personagens reais (e.g., Olavo Bilac) e o trecho em que Lima Barreto fala sobre suas referências: “Não nego que para isso tenha procurado modelos e normas. Procurei-os, confesso; e, agora mesmo, ao alcance das mãos, tenho os autores que mais amo. Estão ali O Crime e o Castigo de Dostoiévski, um volume dos contos de Voltaire, A Guerra e a Paz de Tólstoi, o Rouge et Noir de Stendhal, a Cousine Bette de Balzac, a Education Sentimentale de Flaubert, o Antéchrist de Renan, o Eça; na estante, sob as minhas vistas, tenho o Taine, o Bouglé, o Ribot e outros autores de literatura propriamente, ou não. Confesso que os leio, que os estudo, que procuro descobrir nos grandes romancistas o segredo de fazer” (p. 72).

O melhor é que a linguagem é bastante acessível, eu não achei nem um pouco enfadonha. As palavras são de uso corriqueiro (uma ou outra consulta ao dicionário, apenas para aumentar o vocabulário mesmo, se desejar; mas os sentidos são facilmente apreendidos pelo contexto).

Então, não há outra recomendação a não ser LEIA JÁ!


Título: Recordações do escrivão Isaías Caminha
Autor: Lima Barreto
Editora: Martin Claret
Categoria: Romance
Ano: 2010
Páginas: 208
Mais sobre o autor aqui
Classificação: 


Trechos

. Verrinas nada adiantam, não destroem; se, acaso, conseguem afugentar, magoar o adversário, os argumentos deste ficam vivos, de pé. (p. 11)

A obra d’arte tem por fim dizer aquilo que os simples fatos não dizem. (p. 12)

. Aquela sua faculdade de explicar tudo, aquele seu desembaraço de linguagem, a sua capacidade de ler línguas diversas e compreendê-las constituíam, não só uma razão de ser de felicidade, de abundância e riqueza, mas também um titulo para o superior respeito dos homens e para a superior consideração de toda a gente. (p. 15)

Quantas prerrogativas, quantos direitos especiais, quantos privilégios, esse título dava! … Era uma outra casta, para a qual eu entraria, e desde que penetrasse nela, seria de osso, sangue e carne diferente dos outros — tudo isso de uma qualidade transcendente, fora das leis gerais do Universo e acima das fatalidades da vida comum. (p. 23)

De fato, subi pensando no ofício de legislar que ia ver exercer pela primeira vez, em plena Câmara dos Senhores Deputados — augustos e digníssimos representantes da Nação Brasileira. … Imaginava-os com uma tresdobrada forças de sentidos e inteligência, podendo prever, adivinhar, sentindo antes de expressos os desejos, as necessidades de cada um dos milhões de entes que sofriam e viviam, que pensavam e amavam pela vasta extensão da pátria. (p. 37)

. Menino! você é muito ingênuo. Crê na justiça, ora! (p. 53)

Gente miserável que dá sanção aos deputados, que os respeita e prestigia! Por que não lhes examinam as ações, o que fazem e para que servem? Se o fizessem… (p. 58)

. A insignificância do critério dos nossos literatos. Gente, disse-me ele, que vive perturbada, desejosa de realizar ideais de povos mortos, ideais que já se esgotaram; prisioneira da arqueologia, e muito certa de que a verdade está aí, como se houvesse uma beleza absoluta, existindo fora de nós e independente de nós. (p. 62)

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