[RESENHA] Honoré de Balzac – Eugênia Grandet

Honoré de Balzac – Eugênia Grandet

O amor, no matrimônio, é uma quimera.
(p. 172)

O romance apresenta a mentalidade da época da Restauração e … desenvolve o tema da avareza exacerbada. Aborda também a paixão despertada em uma jovem provinciana de 23 anos, que vive com seus pais em Saumur, às margens do Loire, por seu primo parisiense e aristocrático, que veio àquela cidade por recomendação de seu pai, que logo em seguida se suicidou devido às suas dívidas.

A jovem, que dá nome ao livro, é filha de um rico e avarento vinhateiro que fora toneleiro antes de iniciar sua fortuna com auxílio da herança de sua esposa ao se casar. As famílias mais distintas da região disputam sua mão para se apossarem da fortuna, mas a chegada do primo parisiense, Charles Grandet, modifica totalmente a situação, pois, a partir de então, Eugênia sofre as maiores provações por causa dele, a começar pela opinião do pai, contrária ao matrimônio entre os dois.” (Fonte: wikipedia)


Um dos precursores do realismo, Balzac foi o autor da “Comédia Humana” – que, por sua vez, guarda estreita relação com a “Divina Comédia”, de Dante Alighieri. Nessa extensa coleção, o autor inclui grande parte de sua obra, notadamente contos, romances e novelas que narram histórias essencialmente burguesas, com todas as qualidades e, principalmente, defeitos dos homens de sua época. Eugênia Grandet está inserido nessas histórias.

O livro está dividido em 6 capítulos, chamados, na edição da Martin Claret (aqui vai uma pequena interrupção: QUE EDIÇÃO HORRÍVEL! Depois de ler a da Martin Claret, vi a da L&PM, que me deu a impressão de ser beeeeeem melhor), de “Semblantes burgueses”, “O primo de Paris”, “Amores de província”, “Promessas de sovina, juramentos de amor”, “Aborrecimentos de família” e “Assim vai o mundo”.

No começo, a leitura me pareceu bem enfadonha – mas, vai por mim, melhora com o tempo. Balzac se esmera bastante nos detalhes, descreve bem o local, as cenas, para tentar ambientar o leitor, como se ele fizesse mesmo parte daquilo que está sendo descrito. Parte-se da apresentação das personagens (Eugênia e seus pais, seus pretendentes, a história de todos), passa pela chegada do primo Charles/Carlos, por quem a protagonista vai se apaixonar, e termina… Bem, não vou dar spoiler aqui, acho isso desnecessário. Mas mais do que uma historinha de amor envolvendo primos, acho que o livro vale mais pelo retrato fiel da sociedade francesa burguesa naquela época da Restauração – e que pode ser, muito bem, aplicado à atualidade, não só na França, como no Brasil e no resto do mundo. Muitos são como o Sr. Grandet (pai de Eugênia), como os des Grassins e os Cruchot (pretendentes de Eugênia) e como Charles/Carlos, a quem Eugênia dedica uma vida inteira de amor e em quem espera encontrar a sua felicidade. Acho que já falei demais, não?

Enfim, RECOMENDO BASTANTE (exceto a edição da Martin Claret).


Título: Eugênia Grandet (Eugénie Grandet)
Autor: Honoré de Balzac
Editora: Martin Claret
Categoria: Romance
Ano: 2002
Páginas: 200
Mais sobre o autor: http://pt.wikipedia.org/wiki/Honor%C3%A9_de_Balzac
Classificação: 


Trechos:

. Ao mesmo tempo em que tudo ocorre em Paris, na província tudo passa; neste lugar não há relevo, nem saliência; mas ali repousam os dramas silenciosamente; ali, os segredos são habilmente dissimulados; ali, os desenlaces numa só palavra; ali, os imensos valores emprestados pela avaliação e pela crítica aos comportamentos mais impassíveis. Ali se vive publicamente. (p. 13)
. No interesse das cidades, mandara abrir excelentes estradas que conduziam às suas propriedades. Sua casa e suas terras, lotadas com vantagens, pagavam impostos módicos. (p. 19)
. O olhar de um homem habituado a receber de seus capitais um lucro admirável adquire forçosamente, como o do libertino, do jogador ou do cortesão, certos hábitos indefiníveis, movimentos furtivos, ávidos, enigmáticos, que não escapam aos colegas. Essa linguagem secreta estabelece, de certa forma, a maçonaria das paixões. (p. 21)
. Os filósofos que encontram as Nanons, as Sras. Grandet, as Eugências, não terão o direito de achar que a ironia constitui a essência do caráter da Província? (p. 35)
. Não é essa, de resto, uma cena de todos os tempos e de todos os lugares, apenas reduzida à sua expressão mais simples? A figura de Grandet, explorando a falsa afeição das duas famílias, tirando dali enormes proveitos, dominava o drama e iluminava-o. Não era o único deus moderno em que se tem fé, o Dinheiro em todo o seu poder, expresso por uma só fisionomia? (p. 40)
. A modéstia, ou antes, o medo, é uma das primeiras virtudes do amor. (p. 63)
. Acaso nós também não vivemos de defuntos? Que são as heranças? (p. 67)
. As desgraças pressentidas quase sempre chegam. (p. 77)
. “Perdeste o pai”, isso não queria dizer nada. Os pais morrem antes dos filhos. Mas: “Estás sem dinheiro algum!”, isso, sim, traduz todas as desgraças da Terra. (p. 79)
. As lágrimas são tão contagiantes como o sorriso. (p. 80)
. A fome expulsa o lobo da floresta. (p. 86)
. Chegar per fas et nefas ao paraíso terrestre do luxo e dos vaidosos prazeres, petrificar o coração e macerar o corpo em busca de bens passageiros, como antigamente se suportava o calvário em busca dos bens eternos, eis o pensamento geral! Pensamento que aliás está escrito em toda parte, até nas leis, que perguntam ao legislador: “Que pagas?”, ao invés de indagar: “Que pensas?” Quando essa doutrina tiver passado da burguesia ao povo, o que será do país? (p. 88)
. É próprio da natureza do francês entusiasmar-se, encolerizar-se, apaixonar-se pelo meteoro do momento, pelos deuses passageiros. Será admissível que as coletividades, os povos, não tenham memória? (p. 105)
. Em qualquer situação, as mulheres têm mais motivos de sofrimentos do que os homens. Padecem mais do que eles. Os homens contam com sua força e o exercício de seu poder. Agem, movimentam-se, trabalham, pensam, preocupam-se com o futuro, e ali encontram consolo. Assim fazia Carlos. As mulheres, contudo, permanecem imóveis. Ficam face a face com os infortúnios, dos quais nada as distrai. Descem ao fundo do abismo que se abriu a seus pés, mede-o e, frequentemente, enche-o com seus desejos e suas lágrimas. Assim fazia Eugênia. Iniciava-se em seu destino. Sentir, amar, sofrer, sacrificar-se, será sempre o programa da vida das mulheres. (p. 133)
. Era uma rainha, e a mais habilmente adulada de todas as rainhas. A lisonja nunca emana das grandes almas. Ela é o apanágio dos espíritos pequenos, que se esforçam por diminuir-se ainda mais a fim de melhor adentrarem na esfera vital da pessoa em torno da qual gravitam. A bajulação subentende um interesse. (p. 164)
. O amor, no matrimônio, é uma quimera. (p. 172)
. A casa de Saumur, casa sem sol, sem calor, sempre sombria, melancólia, é a imagem da sua vida. (p. 183)


Curiosidades:

. Entre os influenciados por Honoré de Balzac, cita-se nada mais, nada menos, que Machado de Assis.
. A obra foi traduzida para o russo em 1843 por um ilustre “desconhecido” chamado Fiódor Dostoiévski.
. As personagens de Balzac frequentemente aparecem em mais de uma história.

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