[CITAÇÃO] A máquina do tempo (Ailton Fontenele)

Lembro-me de que quando criança a informação valia ouro. Na verdade sempre valeu e continuará sendo assim por muito e muito tempo. Mas naquela época a garimpagem era mais árdua, fazendo com que o ouro reluzisse mais. Às seis da noite era o click final. O que aconteceu no dia, aconteceu. E depois dali, só mesmo na próxima edição. Acontece que, fechada a pauta, o jornal estaria nas bancas na próxima manhã apenas. Dai que entra a verdadeira máquina do tempo.

Diante de algum fato de grande repercussão, a ânsia por novas informações era grande. Mas as tiragens não supriam toda a curiosidade de uma cidade. Então havia tiragens extras, que os meninos de rua aproveitavam para vender e ganhar uns trocados. Assim, após as oito da noite, saia o viajante do tempo, rumo a esquina mais próxima, aquela lá da padaria, atrás da tão ansiada informação que apenas os vendedores avulsos tinham a oferecer.

Lembro que quando retornava o viajante com aquele jornal quentinho, que tinha data do dia seguinte, era como estar diante do futuro. Os olhos brilhavam… Sabe aquele médico famoso baleado num assalto e que estava hospitalizado hoje. Pois é, morreu amanhã. E a gasolina que talvez subisse só vinte centavos, vai subir quarenta. Então era hora de correr pro posto e abastecer o carro, antes que o futuro chegasse.

E o viajante do tempo não estava só. Quanto mais repercutia o fato social, mais deles existiam nas esquinas noturnas, à procura do futuro. Vivíamos com o olho no futuro, em busca da sobrevivência à inflação. Abrir o jornal as nove era olhar para o futuro.

Hoje a máquina do tempo já não é mais a mesma. Como uma sala cheia de quinquilharias – um boneco de palhaço, um baú velho sem chave, um colchão mofado – esta tudo lá, perdido no esquecimento. Não por ser de um passado distante, muito pelo contrário, mas devido a vastidão do galpão e a quantidade de entulho que nele há. Absorto diante de infinitas prateleiras, a vagar de um lado para o outro sem saber aonde se quer chegar, fica o viajante perdido. Senhor da informação, com um mundo aos seus pés, não sabe aonde quer ir. Olha para um lado e bafora. O visor de seu capacete embaça. Olha para o outro e a vista turva, pois as prateleiras e quinquilharias se fundem no horizonte a perder de vista. Como uma criança perdida em meio à biblioteca de Alexandria, ávido por adquirir todo aquele conhecimento, fica o viajante parado a olhar o mundo compilado em informações, intangíveis de serem adquiridas e processadas por seu minúsculo cérebro. Tanto há, mas pouco sou. O mundo cabe na sala, mas a sala não cabe em mim. E o viajante se senta e chora, tira o capacete e respira aquele ar pulverulento de mofo. Quão insignificante sou e de nada sei. E não há tempo para se saber mais. E Aquele que me criou ainda tem a audácia de me dá intelecto suficiente para perceber isso, resmunga o viajante. Quanto sadismo, murmura ele.

Num caderno velho escreve ele e pensa: Talvez pensem que vim do passado, pelo estado que estão essas páginas amarelas. Então começa a escrever sua história, da forma mais delirante possível, uma verdadeira obra literária, mas …,de repente, para.

Olhando novamente a sala e sua vastidão, olha o capacete que deixou no chão e o caderno aberto na prateleira. Quem haverá de ler esse minúsculo pergaminho em meio a todo esse infinito? Então o viajante resignado larga ao chão o lápis mastigado, atarraxa seu capacete e desintegra-se de volta ao túnel do tempo onde não há passado, presente ou futuro.


Mais sobre o autor: Ailton Fontenele

 

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