[RESENHA] Virgílio Maia – Palimpsesto & Outros Sonetos

Palimpsesto & Outros Sonetos
Virgílio Maia – Palimpsesto & Outros Sonetos

Meu contato com a poesia, numa leitura sistemática (fora dos padrões escolares, de necessidade para provas e trabalhos), deu-se bem mais tarde do que com a prosa. Lembro-me como se fosse hoje, poucos anos atrás (3? 4? 5?), em uma livraria, deparei com aquele que é considerado nosso Poetinha. Nova Antologia Poética era o nome do livro, e eu pensei: por quê não?
Daí para fazer toda a sua coleção poética reeditada pela Companhia das Letras foi um pulo – e para me atrever a conhecer novos autores, também.
Percorrendo esse caminho, acabei chegando a Palimpsesto & Outros Sonetos, do cearense Virgílio Maia. Na época (eita que coisa velha) em que o vestibular era totalmente diferente de agora, sem essas coisas de ENEM, SISU e outras siglas mais, a UFC adotava livros paradidáticos obrigatórios (metade deles, salvo engano, de autores cearenses) no seu exame, e me disseram que esse livro certa vez entrou na lista. Acho que em 2005, 2006; alguém pode me ajudar?
Vamos, sem mais delongas, ao livro em si.
Ainda que cheios de figuras de linguagens, os poemas que o compõem são de uma leitura fácil. Não há palavras muito rebuscadas, apenas uma ou outra pesquisa no dicionário para aumentar o nosso vocabulário; o poeta busca retratar situações cotidianas, fazer homenagens, falar de cenas, quadros, obras, paisagens; faz metapoemas, brinca com as palavras… Suas temáticas se encontram bem resumidas no Soneto C, que considero a síntese do livro:

Cem sonetos acolho neste arquivo:
se dos cem cometi alguns a esmo,
outros são de tal forma meus amigos
que são, eu sei, retalhos de mim mesmo.

Falam de quase nada e quase tudo:
de um avô, de um menino e seu destino,
dos meus pais, Fortaleza, de alguns bichos,
dessa luz que incandesce e deste escuro.

São sonetos, não passam dos quatorze
versos vertidos, postos nesta fôrma:
dez sílabas contadas e medidas.

Rimas, poucas, e quase sempre pobres.
E não posso dizer que disse todas,
todas as coisas que merecem ditas.

São bastante diferentes daqueles que aprendi a gostar com Vinícius de Moraes – e talvez por isso não tenham caído tanto no meu gosto, acostumado que fiquei a poemas lírico-amorosos. Mesmo assim, alguns deles merecem destaque, como Pesadelo (já citado neste blog), A lua na goiabeira, Receita de soneto, Soneto de amizade, Cenotáfio, Demanda, O Quinze revisitado (que considero o ponto alto da obra), Soneto do fuzilamento e o já comentado Soneto C.

Recomendo (para uma manhã de sábado despretensiosa).


Título: Palimpsesto & Outros Sonetos

Autor: Virgílio Maia
Editora: Imprensa Universitária
Categoria: Poesia
Ano: 2004
Páginas: 99
Mais sobre o autor: http://www.ceara.pro.br/acl/Cadeiras/VirgilioMaia.html
Classificação: 


A lua na goiabeira

Ela surgiu, não plena, mas minguante,
entre galhos da seca goiabeira.
Selênica subiu, se fez distante,
repetindo no azul a clara esteira.

Lunar partiu, qual fora a derradeira,
seguindo pelo céu, extravagante,
deixando a goiabeira num instante
desenfeitada e só a noite inteira.

Apenas luna, luna ela seguiu,
se indo vã para os lados do poente,
restando a só pergunta: por que a gente

sempre lhe volta esperançado olhar,
sem receber, sequer, simples olá,
da lune, moon que chega e já partiu?

Receita de soneto
Carlos Pena Filho (in memoriam)

Colha da nuvem nova o movimento
ou botão que se abra em bela flor.
Não tenha pressa, devagar c’o andor,
deixando assim à solta o pensamento,

ouvindo mar e céu, cheirando o vento,
acalentando em rútilo dulçor:
quando exata a poesia achar que for,
lance tudo ao papel nesse momento.

Começando o primeiro dos tercetos,
faça a festa ao duende dos sonetos,
que da rima dará seu endereço.

Ponha de lado, então, o que já disse,
provavelmente um monte de tolice,
e retorne de novo ao recomeço.

Soneto de amizade

Só para ver-te agora são meus olhos
e se mirei-te, amiga, assim desnuda,
só para mim serás, tão só meu solo
onde semearei, uma por uma,

recônditas vontades dos meus sonhos
ajoujados desejos, terna luta,
que é plena vida, transbordante corpo,
saciamento em capitosa fruta.

Comigo irás até o fim das forças,
perseguindo caminhos não corridos,
à clara noite e pela mais aurora.

Zarparei marinheiro e, viandante,
nos amanhãs quaisquer por onde eu anda,
solfejarei teu nome. Teu amigo.

Cenotáfio

Guardava crudelíssimos segredos
escondidos no sótão da memória,
mas os expunha, às vezes, fúteis, tredos,
embalados em dotes de oratória.

Nem sei se valerá, a sua história,
a pena ser contada em versos ledos,
constituída que é só de arremedos
e de bobas batalhas, sem vitória.

Murchou, sem jeito, ao perpassar da vida,
recolheu-se aos escuros escaninhos,
ex-homem fez-se e logo foi-se embora,

foi, desertou. Partiu, e ninguém chora,
saudades não deixou na despedida.
Só um sério problema aos adivinhos.

Demanda

Por tanto tempo, amiga, te busquei,
que fiz da minha busca coisa insana.
Os livros mais remotos vasculhei,
as palavras do Cristo e do Gautama.

Busquei-te até às mãos de uma cigana,
nas linhas desta mão, mas não te achei.
Prossegui mesmo assim minha demanda,
cumprindo o fado a que me destinei.

E quando, agora, a busca já cessara,
me recolhendo à calma destes versos,
vejo aqui no papel, sempre sereno,

o teu rosto querido que buscara,
quase te ouvindo a voz, estás tão perto?,
no derradeiro verso do soneto.

O Quinze revisitado

Percorro novamente este romance
espiando seu áspero caminho
de fome e seca e sol sem que me canse,
pois retirante vou em redemoinho,

cumprindo minha sina lance a lance
na paisagem queimada em desalinho.
De repente me areio e num relance
não sei mais onde estou nem adivinho.

Olho sedento os secos carrascais,
o seixo reluzente, este universo
onde tudo é tão cinza e nada vinga.

De onde a chuva se foi, não volta mais,
bebida para sempre neste verso:
vastidão arranhenta da caatinga…

O derradeiro verso deste soneto foi tirado do capítulo 17 do romance O Quinze, de Rachel de Queiroz.

Soneto do fuzilamento

Um deus de pedra assiste à dura cena
e o dia desce em tragos de tequila.
Sem esperança: a esguia espada erguida
a tarde fendirá, em ordem horrenda.

À toda um padre asperge a água-benta,
mas a terra tem sede é de justiça.
Temerosos das armas fraticidas,
do sombreiro os que atiram fazem vendas.

Mire: um povo a si mesmo se aniquila,
que só vencidos há nessa contenda,
igualado o que cai ao que fuzila.

Ó México de guerras e de lendas,
na procura de altares e oferendas,
o que será encontro ou despedida?


OBS.: Em síntese muito resumida (sendo bem redundante, de propósito), palimpsesto é uma escrita em camadas.

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